Ex-presidente do Clube de Engenharia do Brasil, Márcio Girão, defende em palestra para a ANECI proposta de Rotas Tecnológicas e integração entre academia, governo e indústria por meio de uma plataforma digital de Inteligência para a Inovação
A Academia Nacional de Educação, Ciência e Inovação (ANECI) iniciou um ciclo de conferências com o objetivo de promover a integração entre diferentes áreas do conhecimento e contribuir para o desenvolvimento brasileiro. Na abertura, o presidente da entidade, Paulo Alcântara Gomes, ex-reitor da UFRJ, destacou a importância de aproximar ciência, engenharia, educação, governo e indústria, além de defender propostas para melhorar o financiamento das universidades e fortalecer as políticas públicas voltadas ao desenvolvimento nacional. O ciclo foi aberto com a palestra intitulada “A hélice tripla em mapas do caminho e suas consequências na aceleração do desenvolvimento social e tecnológico”, ministrada pelo ex-presidente do Clube de Engenharia do Brasil Márcio Girão.
O engenheiro Márcio Girão, que também é ex-diretor da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), apresentou uma análise da crise da engenharia brasileira e de seus reflexos na capacidade tecnológica e industrial do país. Segundo ele, a engenharia perdeu espaço desde a década de 1980, com a redução das grandes encomendas tecnológicas e o enfraquecimento de empresas de consultoria e projetos. Ele também chamou a atenção para a baixa formação de engenheiros, a evasão nos cursos universitários e a dependência tecnológica do Brasil em relação a outros países.
Como alternativa, Girão defendeu o modelo da hélice tripla, baseado na articulação entre governo, universidades e a indústria para estimular a inovação. A proposta prevê a criação de Rotas Tecnológicas, ou Roadmaps, que estabeleçam objetivos, prioridades, prazos e responsabilidades para orientar investimentos públicos e privados. O palestrante citou experiências similares da China, dos Estados Unidos, do Japão e da Alemanha, destacando como o planejamento de longo prazo pode fortalecer setores estratégicos, ampliar a competitividade e reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras. Esta estratégia daria o norteamento fundamental para o desenvolvimento.

“Temos um sistema de desenvolvimento tecnológico do país, baseado em nosso Sistema Nacional de Inovação, que é muito rico e muito bom e muito bem estruturado, só que ele está desorquestrado, e esse é o problema. É como se fosse uma orquestra onde o violino está afinado em ré, o violoncelo afinado em fá, sei lá o que mais, e não sai música, e não tem maestro. Esta é a complicação”, explicou Girão.
Dessa forma, propôs reorganizar o Sistema Nacional de Inovação, integrando instituições de pesquisa, agências de fomento, universidades e empresas. Entre as medidas apresentadas estão a implementação de uma plataforma digital de Inteligência para a Inovação para conectar capacidades científicas e empresas, o mapeamento dessas competências, o estímulo à cooperação tecnológica e a avaliação de impacto dos resultados dos investimentos. Ele defendeu ainda o fortalecimento da FINEP e do BNDES como instrumentos de desenvolvimento, com maior direcionamento dos recursos para pesquisas aplicadas, empresas de base tecnológica e projetos considerados estratégicos para o país.
Apesar de ver como positiva a política da Nova Indústria Brasil, programa do governo federal dividido em seis missões com o objetivo de alavancar a industrialização, Girão apontou falhas na sustentação no novo modelo.
“O problema é o seguinte: é preciso ter metas e prazos. Cadê o prazo? Meta para quando? Quem é que vai cumprir essa meta? Quem é que vai ser substituído se não cumprir a meta? Quem é que vai ser contratado para gerir essas metas? É um problema também que o país tenha a gestão adequada, principalmente dos ativos públicos”, defendeu Girão.
A proposta defendida por Girão, desenvolvida quando foi diretor da FINEP, foi inicialmente experimentada e validada em oito eixos, compostos por cadeias de valor importantes para orientar o planejamento tecnológico e os investimentos em inovação, conectando governo, empresas e instituições de pesquisa. São eles: Acesso à água no semiárido, Bioprodutos, Defesa, Indústria 4.0, Manejo integrado de pragas, Medicina regenerativa, Óleo e gás e Serviços financeiros. O objetivo é construir Rotas Tecnológicas de curto, médio e longo prazo para cada eixo, orientando pesquisas, financiamentos e parcerias entre governo, universidades e empresas.
“O governo poderia, por exemplo, utilizar a encomenda tecnológica em projetos importantes de forma a garantir o retorno às empresas brasileiras que investiram numa determinada Rota Tecnológica, ou seja, é uma mudança de postura, uma mudança de cultura dos governos também”, ressaltou o palestrante.
Durante o debate, os participantes ressaltaram que a recuperação da engenharia nacional depende também da melhoria da educação básica e do ensino médio, da formação de professores e da reformulação dos cursos de engenharia, considerando as necessidades regionais e os diferentes perfis profissionais. Foram discutidos ainda os entraves ao registro de patentes no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), a necessidade de redefinição do conceito constitucional de empresa brasileira, a falta de continuidade das políticas públicas e a necessidade de transformar programas de governo em projetos de Estado.
Como mensagem central, Girão afirmou que o financiamento e os subsídios, por si só, não garantem resultados: é necessário ações estratégicas projetadas no tempo e metas e prazos continuamente auditados, integração institucional e continuidade das ações para impulsionar o desenvolvimento científico, tecnológico e industrial brasileiro.

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