Escritor e jornalista lança no Clube de Engenharia do Brasil “Contos Guerrilheiros”
As novas gerações que não viveram o período da ditadura dos anos 1960 e 70 no Brasil podem até desconhecer a gravidade da violência política do período, ou simplesmente ter uma visão distorcida em virtude de narrativas glamurosas sobre a luta armada. Por isso, obras como a do escritor e jornalista Ivan Seixas, que acaba de lançar “Contos Guerrilheiros” (Editorial Adandé), podem contribuir não só para trazer esclarecimentos a respeito dessa fase histórica, bem como refrear movimento autoritários ainda presentes. As experiências do ex-preso político, que foi brutalmente torturado, foram contadas sob muita emoção no lançamento realizado no Clube de Engenharia do Brasil, nesta quarta-feira (04).
Seixas, que atuou junto ao Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) na adolescência, contou que teve a ideia de escrever o livro justamente para deixar registrado seu testemunho e narrar episódios dolorosos da vida de personagens reais, com os quais muitos vão identificar. Apesar de já terem sido publicados muitos livros sobre o período histórico, além de fatos inédito, a obra revela um ponto de vista mais real e nem tanto heroico dos acontecimentos.

No livro, utiliza seu nome de guerra, Teobaldo, e procura preservar as histórias e identidades dos companheiros, destacando valores como solidariedade, confiança, generosidade e compromisso coletivo. Entre os personagens lembrados estão Carlos Lamarca, Joaquim Câmara Ferreira, Yoshitane Fujimori e outros militantes que sacrificaram suas vidas pela luta política.
“Eu me coloquei numa situação e de falar de um personagem que sou eu, que eu vivi, como foi exatamente. Não é o Ivan falando, mas o Teobaldo”, explica.
O autor também relatou sua experiência de prisão ainda aos 16 anos, e as sessões de tortura às quais foi submetido, incluindo choques elétricos, espancamentos no famigerado pau de arara e simulações de fuzilamento. Durante o período de encarceramento, passou pelo DOI-Codi, DOPS, Presídio Tiradentes e por uma instituição psiquiátrica, onde permaneceu por quase três anos. A emoção tomou conta do auditório, quando Ivan falou sobre o assassinado de seu pai, Joaquim Alencar de Seixas, pela ditadura e destacou a importância da resistência de presos políticos que, mesmo submetidos a torturas extremas, não entregaram seus companheiros.
Ao falar sobre a produção do livro, Ivan ressaltou que escrever foi um processo emocionalmente doloroso, marcado pela lembrança dos amigos mortos e das experiências traumáticas vividas. Também defendeu que a resistência nunca abandonou princípios éticos, evitando atingir familiares de adversários e limitando suas ações aos responsáveis pela repressão. Para ele, a preservação dessas histórias é fundamental para combater o esquecimento, reconhecer os crimes cometidos pelo Estado e defender a responsabilização dos torturadores.


Além de cicatrizes, o ex-preso político guardou os traumas durante décadas e por muito tempo viveu com o medo de ser preso novamente, mesmo depois da soltura.
“A última frase que eu quando eu tive que sair do Dops, que eu ouvi de um delegado, foi: ‘Vocês sabem que nós vamos te matar, né?”. Então, respondi: ‘Sei, vamos dar trabalho’, revelou o autor.
A conselheira do Clube Maria Alice Ibañez Duarte, que ajudou a organizar o evento, elogiou a coragem do autor ao fazer seus relatos e ressaltou a importância da publicação no atual momento histórico: “Nós temos uma dívida enorme com você e outros lutadores e temos que honrar essa dívida continuando nessa luta”.



