O médico sanitarista Francisco Pedra, da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP), da Fiocruz, alertou em aula magna realizada na reunião do Conselho Diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro nesta segunda-feira, dia 25, para os riscos do uso do amianto. Segundo afirmou, a substância é altamente tóxica e já foi associada a onze doenças graves, em sua maioria cânceres. No entanto, por ser um material praticamente indestrutível, foi amplamente utilizado em todo mundo no século XX. A apresentação intitulada “Soluções para as doenças causadas pelo amianto” teve por objetivo estimular a integração entre a saúde pública e a engenharia.
Encontrado em abundância na natureza, o amianto foi amplamente utilizado pela indústria por ser um material de grande resistência à tração, com estabilidade química e térmica, alta flexibilidade, baixa condutividade elétrica, extensa área de superfície e baixo custo. Mais de 3 mil produtos são fabricados com o amianto, desde construções a talco infantil. O foco de trabalho do médico tem sido identificar o impacto da substância na saúde brasileira.
Conhecido também como asbesto, o amianto é nome genérico dado a seis minerais fibrosos, divididos em dois grupos: serpentinas, representada pela crisotila, e anfibólios, composto por cinco outras variedades.
Durante o período de sua popularização, o Brasil se tornou o terceiro maior produtor mundial, atrás apenas da Rússia e da China. Mas, a partir de 2006, a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a publicar relatórios em que associava a exposição ocupacional à substância a mais de 107 mil mortes anuais no mundo, sendo uma em cada três por câncer.
Classificado oficialmente pela OMS como uma substância cancerígena, a extração, industrialização, comercialização e distribuição do amianto foi proibida no Brasil em 2017 pelo Tribunal Superior Federal (STF). No entanto, em 2019, o estado de Goiás sancionou uma lei que permite a exploração do material para exportação. O município de Minaçu abriga hoje a única fábrica de amianto do país, operada pela mineradora Sama.
Mesmo com sua produção restrita, o amianto ainda tem grande impacto para a saúde humana. Seu amplo uso e grande durabilidade facilitam a exposição da população à substância. Mesmo indivíduos que não trabalharam diretamente com a produção do amianto podem se contaminar, como ressaltou Pedra em sua aula magna.
“Nas enchentes do Rio Grande do Sul, por exemplo, foi necessário quebrar telhas e estruturas de casa para salvar pessoas e animais. Uma vez quebrado o telhado de amianto, a substância vai ser aspirada”, explicou o médico. Em Brasília, os tubos d’água também são feitos de amianto.
Em pessoas já doentes, identificar o momento da primeira exposição à substância também é um desafio. É necessário recompor todo o histórico de vida, o que muitas vezes pode resultar em respostas inconclusivas. Hoje, sabe-se que 70% dos cânceres ocupacionais no mundo são causados pelo amianto.
Em um esforço para ampliar o acesso a cuidados de saúde por pessoas expostas ao amianto, o médico tem trabalhado para realizar um levantamento de empresas que trabalham com a substância.
“Foram realizadas duas listas, mas ambas estão inacessíveis. Por isso, poder estar aqui para falar sobre a questão do amianto é tão importante. Espero que vocês possam ampliar essa conscientização”, afirmou Pedra.

