Tecnologia da Coppe traz mais autonomia e qualidade de vida a pacientes com Parkinson

O que você faria se tarefas simples, como segurar uma xícara, se tornassem um desafio diário? Para milhares de pessoas que convivem com a Doença de Parkinson e o Tremor Essencial, essa é a realidade. Uma inovação que nasce nos laboratórios da Coppe/UFRJ, no entanto, promete mudar esse cenário ao oferecer um tratamento eficaz, acessível e não invasivo — com impacto direto na qualidade de vida dos pacientes.

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professor Carlos Júlio

Coordenado pelo professor Carlos Júlio Criollo, do Programa de Engenharia Biomédica da Coppe, o projeto desenvolve uma tecnologia assistiva e de baixo custo capaz de reduzir tremores por meio de estimulação elétrica aplicada sobre a pele. O protótipo do dispositivo já está em fase de testes clínicos com pacientes do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ), evidenciando a capacidade da Coppe de transformar conhecimento científico em soluções concretas para a sociedade.

Como o tratamento é realizado atualmente
Hoje, o tratamento mais comum para a Doença de Parkinson baseia-se no uso de medicamentos à base de dopamina, que ajudam a controlar os sintomas motores. Com o passar do tempo, porém, esses fármacos tendem a perder eficácia, além de apresentarem efeitos colaterais. Em casos mais avançados, pode-se recorrer ao implante cirúrgico de estimuladores elétricos no cérebro — um procedimento altamente invasivo, de custo elevado e nem sempre indicado para todos os pacientes. Há ainda alternativas menos invasivas, como estimuladores implantados na medula espinhal.

Segundo a neurologista Ana Lúcia Rosso, chefe do serviço de Neurologia do HUCFF, a proposta desenvolvida pela Coppe é especialmente relevante para pacientes que apresentam restrições à realização de cirurgias, seja pela idade avançada ou por comprometimentos cognitivos. “Mesmo para pacientes mais jovens, a possibilidade de controlar os tremores sem intervenção cirúrgica ou aumento da carga medicamentosa é sempre o caminho preferível”, destaca.

Tratamento em casa, com monitoramento inteligente
A solução proposta pela Coppe representa uma alternativa inovadora a esses tratamentos. A estimulação elétrica é feita diretamente sobre a pele, sem necessidade de qualquer procedimento cirúrgico. O paciente pode realizar o tratamento em casa, com praticidade e autonomia, utilizando um dispositivo controlado por aplicativo no celular.

Cada sessão de uso é registrada automaticamente e os dados são enviados, por meio de telemedicina e da internet das coisas (IoT), para um banco de dados seguro. Isso permite que a equipe médica acompanhe remotamente, em tempo real, a evolução do paciente, ajustando parâmetros e protocolos de forma personalizada. A integração entre engenharia, conectividade digital e saúde coloca a Coppe na vanguarda do desenvolvimento de soluções inteligentes voltadas ao cuidado contínuo.

O novo equipamento
Batizado de Mestim Eléctrico, o dispositivo permite a configuração remota de sequências de estimulação elétrica por meio de um aplicativo conectado ao Wi-Fi. Essa flexibilidade garante maior precisão na programação dos estímulos, incluindo parâmetros como frequência, amplitude e largura de pulso, o que é essencial tanto para a prática clínica quanto para a pesquisa em controle motor.

Embora já existam dispositivos comerciais voltados à redução de tremores, a maioria utiliza apenas ondas quadradas ou retangulares de estimulação elétrica. O projeto da Coppe avança além desse padrão ao empregar ondas senoidais, que permitem uma ativação mais seletiva de diferentes tipos de fibras nervosas.

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Danilo Molina

Essa abordagem possibilita um estímulo mais direcionado às vias aferentes envolvidas na modulação do controle motor, aumentando a eficácia na redução dos tremores e minimizando desconfortos. “O diferencial desse dispositivo é que ele é totalmente configurável. Conseguimos ajustar a frequência, a largura de pulso e a amplitude da onda de forma personalizada para cada paciente, buscando o ponto exato em que o tremor é reduzido sem causar desconforto”, explica Danilo Molina, aluno de doutorado em Engenharia Biomédica da Coppe.

Outro destaque é a versatilidade tecnológica do equipamento. Enquanto dispositivos existentes oferecem padrões restritos de estimulação, o Mestim Eléctrico é capaz de gerar praticamente qualquer forma de onda arbitrária de corrente. Isso amplia as possibilidades de protocolos terapêuticos, fortalece a pesquisa em neuromodulação e abre caminho para novos avanços clínicos.

Impacto social e transferência de tecnologia
Com foco na aplicação prática e no benefício direto à população, o projeto também prevê a transferência da tecnologia para o sistema de saúde. “Nosso objetivo é fazer com que essa inovação chegue à sociedade e não fique restrita ao ambiente acadêmico. Dentro do projeto, vamos desenvolver dez protótipos que serão implementados em outras unidades hospitalares do SUS”, afirma o professor Carlos Júlio.

Ao unir engenharia, inovação e tecnologia com custos acessíveis, a Coppe reafirma seu papel estratégico no desenvolvimento de soluções que promovem mais qualidade de vida, fortalecem o SUS e ampliam o acesso da população a tratamentos avançados.

Financiado pela FINEP, o projeto reúne uma ampla rede transdisciplinar, envolvendo sete laboratórios da UFRJ e integrando competências das áreas de engenharia, saúde e tecnologia. A iniciativa conta ainda com a parceria do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ), do Instituto de Neurologia Deolindo Couto (INDC/UFRJ), do Departamento de Neurologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ), da Universidade Politécnica Salesiana, do Equador, e de empresas do setor de equipamentos médicos.

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