Artigo analisa os desdobramentos históricos das iniciativas de cada país
Por Olga Simbalista
No dia 26 de junho de 2025, foram completados os 50 anos da assinatura do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, à época considerado o acordo do século, tanto por seu valor, quanto por sua abrangência, pois cobria os seguintes aspectos:
- Oito reatores nucleares de potência de 1200 MW, dos quais dois, Angra-2 e Angra-3 a serem contratados para iniciar as construções em seguida;
- O fornecimento de tecnologia do ciclo completo do combustível nuclear, incluindo:
- a produção do concentrado de urânio (yellow cake);
- a conversão deste pó em gás (UF6);
- o enriquecimento isotópico deste gás para aumentar o percentual do isótopo Urânio-235 de 0,7% para cerca de 3,5% com relação ao isótopo Urânio-238, que não sofre a fissão nuclear, fazendo uso da tecnologia da ultracentrifugação;
- a produção de pastilhas de combustível (UO2);
- a montagem de elementos combustíveis a serem colocados nos núcleos dos reatores para a produção de eletricidade;
- e o reprocessamento dos combustíveis usados nas usinas para a retirada do urânio residual e do plutônio, para futuro reuso.
- A construção de uma enorme fábrica capaz de produzir todos os componentes pesados do circuito primário dos reatores após Angra-3;
- E a prospecção de urânio em território nacional, em áreas até então não prospectadas, por meio de uma empresa mista dos dois países.
Na mesma ocasião, o Irã, então governado pelo Xá Reza Pahlev, também contratou duas usinas da Alemanha, irmãs de Angra-2 e 3, denominadas Busher 1 e 2.
Mas os programas nucleares desses dois países já haviam sido iniciados bem antes.
No caso do Brasil, no início dos anos de 1950, quando da visita do Presidente do CNPQ, Álvaro Alberto, aos EUA, já se procurou adquirir equipamentos de pesquisas, como um Cíclotron e obter tecnologia, mas sem qualquer sucesso. Na ocasião, Álvaro Alberto soube da existência, na Alemanha, de ultracentrífugas desenvolvidas por aquele país e decidiu comprá-las, já com imensas dificuldades por obstruções americanas. Depois de algum esforço, finalmente, conseguiu transportá-las para o Brasil num navio cargueiro e escondê-las no IPT, em São Paulo, sendo a base para o desenvolvimento autônomo do enriquecimento do denominado Programa Paralelo da Marinha. Alguns anos depois, no contexto do Programa Átomos para a Paz, lançado pelo Presidente Eisenhower, o Brasil recebeu duas instalações de pesquisas: o reator do Instituto de Energia Nuclear-IEA, atual IPEN, e o reator Triga do Instituto de Pesquisas Radioativas (IPR), atual CDTN.
No caso do Irã, seu programa nuclear, também, teve início com o programa Átomos para a Paz, com a construção de um reator de pesquisas, que na ocasião, durante o governo Ford, teria recebido plutônio para seu combustível, pois os EUA temiam a construção de artefatos nucleares por outros países não confiáveis e o Irã, então governado pelo Xá, parecia completamente alinhado. Porém, em 1979, após o segundo choque do petróleo e da Revolução Islâmica, que expulsou o governante anterior e nacionalizou suas reservas de petróleo, passando a ser membro da OPEP, o programa nuclear foi paralisado.

No Brasil, o programa com a Alemanha começou a fazer água. A transferência da tecnologia por ultracentrifugação foi barrada pelos sócios da empresa detentora, a Urenco, uma sociedade entre holandeses, alemães e ingleses, tendo sido proposta sua substituição por outra, em estágio piloto em um instituto de pesquisas, mas que, até então, não havia enriquecido qualquer grama de urânio. Nessa ocasião, as construções de Angra-2 e 3 já estavam muito atrasadas, por questões de licenciamento de suas fundações e a disparada do custo dos empréstimos de financiamento no exterior. Na mesma ocasião, o governo brasileiro já dispunha de um diagnóstico, dado por entidades militares e civis quanto à necessidade de se empreender um esforço nacional na busca do desenvolvimento de tecnologia de enriquecimento, gerando o que foi denominado de Programa Nuclear Paralelo, conduzido, basicamente pela Marinha e com aprovação secreta da Comissão Nacional de Energia Nuclear-CNEN.
No Irã, o regime dos aiatolás também decidiu retomar seu programa nuclear, centrado no processo de enriquecimento isotópico de urânio, usando a ultracentrifugação, mas, diferentemente do Brasil. Por meio da compra de tecnologia desenvolvida por um ex-expert da Urenco, o paquistanês Dr. Khan, que já havia desenvolvido os artefatos nucleares de seu país e, provavelmente, fornecido tecnologia também para Coréia do Norte e Líbia. O Irã, que havia aprovado sua adesão ao Tratado de Não Proliferação junto à AIEA, ainda em 1971, sob o governo do Xá, manteve o acordo e permitiu inspeções desta Agência.

O Programa autônomo do Brasil foi um sucesso e tornado público, em 1987, no Governo Sarney, que o inaugurou com a presença do Presidente da Argentina Raúl Alfonsín, quando foram iniciadas negociações de cooperação entre os dois países, para o uso da energia nuclear para fins pacíficos, resultando na criação da Agência Brasileira-Argentina de Controle de Salvaguardas (ABACC), prevendo inspeções mútuas dos dois países e da AIEA. No ano seguinte, a Constituição de 1988 introduziu em seu texto que a energia nuclear no país só seria admitida para fins pacíficos, com aprovação do Congresso Nacional.

O Irã continuou seu programa de enriquecimento para suas instalações de pesquisa e, em 1995, assinou acordo com a Rússia para a conclusão da construção de Busher 1. Anunciou, então, que iria construir um reator de 350 MW e, concomitantemente, a exploração de uma mina de urânio em seu território para combustível próprio. O enriquecimento era feito numa planta de superfície, considerada piloto, em Isfahan. A partir de 2001, iniciou um processo de restrições aos acessos da AIEA , uma vez que seu programa passou a ser considerado um dos pilares de seu Nacionalismo. Outras plantas de enriquecimento subterrâneas foram concluídas em locais distintos, como Natanz e Fordow, esta última a 80 metros de profundidade.
Em junho de 2010, o Conselho de Segurança da ONU definiu sanções contra o Irã, proibindo a venda por outros países de helicópteros de ataque, mísseis e navios de guerra, além do congelamento de seus ativos no exterior. Em julho, as sanções escalaram para os setores de petróleo e gás, ao que o Irã respondeu que não iria se manifestar, até que as potências mundiais se pronunciassem sobre o arsenal nuclear de Israel, que, segundo a agência sueca Dimoni, teria 90 ogivas atômicas. Várias negociações foram empreendidas desde então, envolvendo, inclusive Brasil e Turquia e, principalmente os EUA, sem chegarem a qualquer conclusão.

Até que, em 19/06/2025 o presidente estadunidense Donald Trump informou ao Irã que lhe dava o prazo de no máximo duas semanas para se abrir às inspeções da AIEA, antes que houvesse uma intervenção militar. Porém, decidiu agir em dois dias, com um ataque militar denominado Martelo da Meia Noite, que contou com o suporte de submarinos, 125 aeronaves militares, mísseis de alta precisão transportando bombas antibunkers tipo MOP (Massive Ordinance Penetrator) GBU-57, capazes de atingir profundidades de dezenas de metros. Os alvos foram:
- A usina de Isfahan, descoberta e contendo centenas de centrífugas da primeira geração;
- A usina de Natanz, subterrânea e contendo cerca de 130.000 centrífugas mais desenvolvidas;
- A usina de Fordow, construída sob uma montanha, a uma profundidade de 80 metros, com cerca de 3.000 centrífugas, com capacidade de aumentar o enriquecimento de outras instalações até níveis estratégicos, contendo talvez 420 Kg de material altamente enriquecido a níveis entre 60 a 80%.
Após os bombardeios, o Presidente Trump anunciou a destruição do programa iraniano, porém a AIEA informou, em 02/07/2025 não haver detectado nenhum aumento do nível de radiação nas regiões atacadas, sinalizando, talvez, que as instalações tivessem sido evacuadas e transportadas para outros locais.

No momento em que este texto foi concluído, não se dispõe de qualquer informação conclusiva sobre a situação real!