Coronel Herculano Gomes coordenou obras realizadas em tempo recorde, mas sofreu com acusações injustas
A engenharia militar no Brasil foi o verdadeiro berço dessa atividade no país e produziu muitos expoentes que deixaram importantes legados, como o coronel do Exército Herculano Gomes (1899-1963). Sua maior contribuição foi a coordenação das obras de construção do estádio do Maracanã, função que exerceu por escolha do então prefeito Ângelo Mendes de Moraes, tendo em vista seu histórico nas Forças Armadas, onde demonstrou disciplina e capacidade administrativa. Mas justamente esses quesitos foram injustamente explorados no projeto para a Copa de 1950 e levaram à ruína do engenheiro.
A principal obra identificada antes do estádio foi sua participação na construção do Panteão de Duque de Caxias, monumento militar localizado na então capital federal. Esse empreendimento reforçou sua imagem como um dos oficiais engenheiros mais experientes do Exército na década de 1940. Em 1941, presidiu a comissão do Exército encarregada do recebimento da ponte construída na área da Fábrica de Juiz de Fora, importante instalação militar da época, sobre o Rio Paraibuna. Também atuou em comissões ligadas à Diretoria do Material Bélico e ao Serviço de Engenharia do Exército, fiscalizando construções e obras de infraestrutura

Para a conclusão da obra do Maracanã, o prazo era muito curto e o coronel, que hoje dá nome a uma rua próxima ao estádio, exerceu linha dura para que o equipamento estivesse pronto a tempo. Até chegou a morar no canteiro de obras durante três meses, deixando sua família no Jardim Botânico. De fato, ele conseguiu concluir a construção apenas um ano de dez meses depois do início dos trabalhos, mas o resultado causou grande polêmica, principalmente por conta de suspeitas de desvios nunca comprovados e pelo fato de ter sido necessário que os jogos iniciais fossem realizados com alguns acabamentos a serem feitos.
“A obra atrasou e o coronel Herculano Gomes, responsável pela execução, apelou para o uso de uma resina especial. Com pouquíssimo tempo para entregar o estádio, e as desconfianças cada vez mais crescentes de que ele não ficaria pronto para a Copa do Mundo, o coronel resolveu arriscar tudo: as escoras e as formas de madeira seriam retiradas de uma vez só.
A decisão contrariava os engenheiros, que consideravam a retirada de uma só vez mais uma insanidade no processo de construção do estádio […]
Para demonstrar confiança no que estava fazendo, o coronel resolveu ficar sobre a marquise na hora da retirada, na condição de cobaia humana. O madeiramento caiu todo de uma vez nas arquibancadas. A marquise ficou de pé, com o coronel, um sobrevivente, dando pulos de alegria.”, conta o historiador Luiz Antonio Simas, no livro “Maracanã: Quando a Cidade Era Terreiro”.
Decisão ousada e sábia permitiu que o Brasil não pagasse um vexame diante do mundo. A Copa realizou-se com sucesso, mas nos gramados a Seleção decepcionou. Perdeu a final para o Uruguai por 2×1, o que foi visto como uma verdadeira tragédia nacional. Sobrou para o coronel, que sofreu uma verdadeira devassa, afinal alguém tinha que pagar pelo mal-feito em campo.
Logo após a inauguração do Maracanã, Herculano foi acusado injustamente de desviar recursos da obra, passando quase uma década tentando provar sua inocência. Diversas investigações e comissões analisaram sua atuação, mas nenhuma encontrou evidências de enriquecimento ilícito ou irregularidades atribuídas a ele. Enquanto lutava para limpar seu nome, enfrentou sérias dificuldades financeiras, chegando a perder bens, empenhar joias da esposa e viver em situação precária. Sua inocência foi finalmente reconhecida, mas sua carreira profissional jamais se recuperou completamente.
Mesmo após ser absolvido, Herculano enfrentou uma tragédia ainda maior com a morte de seu filho caçula, Herculaninho, em 1961, após um acidente na Pedra do Arpoador. O sofrimento abalou profundamente o engenheiro, que passou a beber e encontrou consolo no espiritismo. Dois anos depois, faleceu aos 63 anos, vítima de uma parada cardíaca. Seus familiares preservam sua memória como a de um homem íntegro, dedicado à família e injustamente perseguido, enquanto sua contribuição para a construção do Maracanã permanece como seu maior legado.




