Por João de Deus Nascimento
Tomemos como ponto de partida a matéria “O geólogo ‘escorraçado’ do Brasil por sugerir à Petrobras que procurasse petróleo no mar”, publicada no site BBC News Brasil, em 24/10/2023. Primeiramente, Walter Link, o geólogo ao qual a matéria se refere, não foi “escorraçado” por, supostamente, ter recomendado a Petrobras, em 1960, a transferir o esforço exploratório que estava sendo feito nas bacias terrestres para a plataforma continental. Essa é uma versão tão fantasiosa e desprovida de fundamentos mínimos, quanto aquelas veiculadas em jornais, no final da década de 1950 e início dos anos de 1960, que atribuíam ao Walter Link feitos absurdos e impossíveis para sabotar os esforços da Petrobras para descobrir petróleo.
O vínculo do Walter Link com a Petrobras começou a ser delineado em 1953, quando o engenheiro Plínio Cantanhede, então presidente do Conselho Nacional do Petróleo (CNP), encomendou ao renomado geólogo de petróleo Arville Levorsen, uma avaliação dos rumos da exploração de petróleo no Brasil, ocasião em que procurou saber da sua disponibilidade para formular e gerenciar a execução do programa exploratório da nova organização que estava sendo criada – a Petrobras -, e que assumiria essas atribuições, até então a cargo do CNP. Levorsen declinou e sugeriu o nome do geólogo Walter Link, que ele entendia ter todos os requisitos para conduzir a empreitada e que poderia estar disponível para aceitar o convite.
Walter Link, estadunidense como Arville Levorsen, trabalhava na Standard Oil (of New Jersey), desde 1926, onde fizera uma brilhante carreira e alcançara o posto de geólogo-chefe, cargo que exerceu de 1947 até 1953, quando foi destituído e transferido da sede da Standard Oil, em Nova York, para a subsidiária lnternational Petroleum Co., em Coral Gables, na Flórida. Foi aí que os engenheiros lrnack Carvalho do Amaral e João Neiva de Figueiredo – oriundos do CNP e que fariam parte da primeira diretoria da Petrobras -, iniciaram as tratativas que resultariam na contratação do Walter Link para estruturar o Departamento de Exploração da Petrobras (DEPEX), formular e gerenciar a execução do programa exploratório, pelo prazo contratual de cinco anos.
Link desembarcou no Brasil, para assumir o cargo de Superintendente-Geral do DEPEX, no inicio de outubro de 1954, pouco mais de um mês após a morte do presidente Getúlio Vargas. No vácuo politico causado pelo trauma, a direita antinacional já se movimentava para revogar a Lei 2.004/1953 que instituíra o monopólio estatal do petróleo e criara a Petrobras. A bancada parlamentar da União Democrática Nacional (UDN), partido notório pela servilidade aos interesses dos EUA, atuou em peso, nos últimos meses de 1954 e nos primeiros meses de 1955, com o propósito de revogar esta lei. No entanto, em março de 1955, a surgência de óleo no poço Nova Olinda-1, no Estado do Amazonas, um projeto remanescente do CNP, deu fôlego e mais argumentos à bancada nacionalista para barrar a tramitação do projeto. O general ldálio Sardenberg, que viria a presidir a Petrobras entre dezembro de 1958 e fevereiro de 1961, diria que sem o evento do poço Nova Olinda-1 dificilmente a Lei 2.004 teria resistido a sanha dos “udenistas”.
O mesmo evento que, na avaliação do general Sardenberg, teria impedido a destruição da Petrobras ainda no seu nascedouro, viria trazer outras consequências com impacto na opinião pública. A primeira delas foi a decepção com o pequeno volume de óleo da jazida descoberta pelo poço Nova Olinda-1, economicamente inviável para ser explotado, frustrando a expectativa de produção num primeiro campo fora da bacia do Recôncavo, e em pleno coração da Amazônia. Em segundo lugar, com a impossibilidade de se produzir o pequeno volume de óleo descoberto, começaram a surgir especulações quanto à suposta sabotagem praticada pelo Superintendente-Geral do DEPEX, que estaria a serviço do seu antigo empregador, a Standard Oil, e assim, propagava-se pela imprensa absurdos, tais como: “Mr. Link mandou cimentar o poço de Nova Olinda para esconder o petróleo”. A cada insucesso – nenhum campo de petróleo foi descoberto, durante a “era Link”, fora da bacia do Recôncavo-, essa desconfiança ganhava corpo e repercussão nos jornais e, num crescente, a pecha de sabotador acompanhou Link para além dos últimos dias em que esteve na Petrobras.
As desconfianças em relação a um estadunidense que servira por tanto tempo à Standard Oil, inclusive no alto escalão da empresa, e que agora estava no comando do mais importante e estratégico programa brasileiro, haviam sido construídas, ao longo das últimas décadas, pelos embaraços criados tanto pela Standard Oil quanto pelo governo dos EUA em relação à pretensão do Brasil de construir a sua indústria de petróleo e ter pleno domínio sobre os seus recursos petrolíferos. Com os seguidos insucessos exploratórios, a imprensa veiculava, reiteradamente, desconfianças desprovidas de razoabilidade, especulações absurdas e imputação de delitos impossíveis. O fato de o Link ter sido contratado no período em que Juracy Magalhães presidia a Petrobras, era, aos olhos dos criticas, uma forte evidência da sua não idoneidade. Juracy era um dos próceres da UDN e, durante a campanha “O Petróleo É Nosso”, manifestara-se pública e frontalmente contra a solução estatal para o petróleo, mas fora nomeado presidente da Petrobras pelo presidente Getúlio Vargas, que também avalizou a contratação do Link.

Qualquer análise sobre o período em que Walter Link foi o Superintendente-Geral do DEPEX – de 1954 a 1960 -, deve considerar que a prioridade fundamental era descobrir acumulações de petróleo economicamente explotáveis nas bacias terrestres. Num país de dimensões continentais, em que quase metade da sua área está coberta por bacias sedimentares, à época ainda muito pouco exploradas – não obstante o conhecimento resultante dos trabalhos realizados por órgãos oficiais, como o DNPM e o CNP, antes da criação da Petrobras – não faria o menor sentido, e nem haveria mínima racionalidade, priorizar um programa exploratório na plataforma continental, onde o desconhecimento geológico era absoluto e a tecnologia para a exploração e produção offshore era embrionária ou mesmo inexistente. Mas, foram naqueles anos da década de 1950 que se começou a fazer os primeiros levantamentos sísmicos da plataforma continental brasileira, um embrião que tantos resultados viriam a proporcionar anos depois, em contexto tecnológico numa indústria do petróleo completamente diferente.
O contrato do Link – que ganhava pouco mais US$ 8.000,00 por mês, outro “escândalo” impiedosamente explorado pela imprensa -, que deveria ser encerrado em outubro de 1959, foi prorrogado para o final de 1960, não sem severas reprimendas publicadas nos jornais. Em meados do último ano como Superintendente-Geral do DEPEX, Link promoveu um encontro entre o seu staff técnico da Sede e os chefes de Distritos, totalizando 14 geólogos – seis brasileiros e oito estrangeiros (incluindo o próprio Link) -, para avaliar os resultados exploratórios obtidos em cada bacia, a fim de recomendar à Diretoria da Petrobras o programa exploratório para 1961 e para os anos seguintes.
Desse encontro, resultou a elaboração de três memorandos – assinados pelo Link e encaminhados ao presidente da Petrobras general ldálio Sardenberg -, que seriam posteriormente vazados para a imprensa com o título de “Relatório Link”. A falta de conhecimento técnico e de isenção dos redatores dos jornais para julgar os documentos, resultou no maior dos escândalos promovidos pela imprensa durante a “era Link”, com sérias repercussões no Parlamento e comoção na opinião pública – resumidamente, na versão dos jornais, Link havia decretado que “não existia petróleo no Brasil”.
Das discussões técnicas realizadas no encontro, onde os votos de todos os geólogos tinham o mesmo peso (o voto do Link não valia mais do que o de qualquer outro), utilizando-se o grande acervo de dados e critérios técnicos consagrados na indústria, concluiu-se, em face dos resultados obtidos desde as campanhas exploratórias feitas pelo DNPM e pelo CNP até os extraordinários e onerosos esforços conduzidos pela Petrobras, recomendar a interrupção da exploração nas bacias de idade paleozoica – na época, designadas como bacias do Acre, Alto Amazonas, Médio Amazonas, Baixo Amazonas, Maranhão e Paraná.
O tempo iria se encarregar de demonstrar a competência, a retidão e o acerto daquele grupo de geólogos, verbalizados no “Relatório Link”. Passadas mais de seis décadas da recomendação para não se prosseguir com a exploração nas bacias paleozoicas – a exceção do gás de Juruá (no Amazonas) e das pequenas reservas de gás no Maranhão -, nenhuma importante descoberta comercial de petróleo se verificou, não obstante os significativos avanços na tecnologia geofísica, principalmente na sísmica, e os novos esforços exploratórios empreendidos pela Petrobras e por outras companhias nessas áreas. Não era nessas bacias que estariam os Bonanza fields (termo usado à época para designar campos com mais de 300 milhões de barris de óleo recuperáveis) de que o Brasil tanto precisava. Até então, como ressaltado em um dos memorandos, a Petrobras já havia dispendido cerca de US$ 300 milhões em exploração nas bacias não produtoras, sendo de longe a parcela mais expressiva desse montante destinada às bacias paleozoicas e, sem perspectiva de êxito, essa sangria de recursos não poderia continuar.
Dentre as bacias não produtoras recomendadas para se prosseguir com a exploração, destinando-se maior ou menor volume de recursos em função das perspectivas de sucesso, estava a bacia de Sergipe/Alagoas, onde, três anos depois, se descobriria o campo de Carmópolis, o primeiro campo de petróleo do Brasil descoberto fora da bacia do Recôncavo.
Sobre a plataforma continental – ao contrário de disparates divulgados na internet, como os da matéria aqui citada – não houve qualquer recomendação para se transferir o esforço exploratório terrestre para as áreas marítimas e nem poderia haver, pelas razões já comentadas neste texto. Nos memorandos encaminhados ao presidente Sardenberg constam apenas três pequenos trechos – transcritos abaixo -, referentes a áreas do escudo continental (continental shield), como se designava, à época, a plataforma continental:
- ”A avaliação das áreas de Sergipe e Alagoas e das áreas terrestres da Planície Costal não se aplica as áreas ainda inexploradas do Escudo Continental, que poderão ser melhores”.
- ”A área da Planície Costal [do sul da Bahia e do Esprito Santo] não tem valor sob o ponto de vista petrolífero, mas acredita-se que mar adentro a seção Cretácea seja mais espessa e marinha, e tenha óleo”.
- ”A área terrestre [do sul da Bahia e do Esprito Santo] pode ser classificada como ‘sem interesse para petróleo’, mas a área marítima pode ter uma classificação melhor. (. .. ) Dentro de alguns meses será iniciado um trabalho sísmico marinho no Escudo Continental”.
Para que não pairem dúvidas em relação à posição do Link, no que diz respeito aos rumos que a exploração pela Petrobras deveria tomar a partir de 1961, transcrevemos a sua inequívoca recomendação: “Duvido que qualquer companhia comercial de petróleo continuasse a exploração nessas bacias paleozoicas, ou que adquirisse concessões e iniciasse um projeto de exploração se conhecesse os resultados da geologia e da exploração tão intimamente como nós. A minha recomendação e conselho é para não continuar a exploração nas bacias paleozoicas [a partir] do fim deste ano. Se, todavia, a PETROBRAS deseja permanecer na exploração petrolífera em larga escala e em base de competição com a indústria petrolífera internacional, e se tem o dinheiro para assim o fazer, sugiro que a PETROBRAS vá a algum país onde podem ser obtidas concessões e onde as possibilidades de encontrar óleo são boas”. Os esforços exploratórios nas bacias paleozoicas foram consideravelmente reduzidos nos anos seguintes, mas a busca por oportunidades no exterior só viria acontecer mais de uma década depois, com a criação da Braspetro em 1972.
A meu ver, o Walter Link foi, pelo menos na Petrobras, um gerente de exploração honesto e pragmático, ao contrário do que alguns menos informados querem fazer crer – ora como um diabólico sabotador, ora como um cientista sonhador. Transcrevo as oportunas e sensatas considerações suas expressas no “Relatório Link”, a respeito do êxito científico versus êxito econômico: “O prosseguimento das explorações envolve assunto de natureza econômica e disponibilidade de verbas para esse fim. A descoberta de um campo ou campos em qualquer das bacias não produtoras, atualmente, seria sem dúvida um sucesso científico, mas poderia igualmente ser um fracasso econômico. O Brasil não parece estar à procura de sucesso sem bons resultados econômicos, mas ter em vista a descoberta de grandes reservas de óleo que tornem o País autossuficiente nos anos vindouros”. Como sabemos, a Petrobras viria a obter sucessos econômico em bacias não produtoras em 1960, o primeiro deles na bacia Sergipe/Alagoas, com a descoberta do campo de Carmópolis. Igualmente, também colecionou sucessos não apenas científicos. Quanto à sonhada autossuficiência, esta só viria no século seguinte, mais de quatro décadas depois, da então geologicamente desconhecida plataforma continental e com tecnologias sequer imaginadas naqueles dias.
Em carta a um amigo, no ano de 1972, posteriormente publicada em parte numa edição do Boletim da Associação Americana de Geólogos de Petróleo, Link relaciona os epítetos com os quais a imprensa brasileira frequentemente o tratava: “Inimigo Público nº 1”; “Sabotador nº 1”; “Entreguista nº 1”; e “Instrumento da Standard Oil”. Como já brevemente abordado neste texto, a execração pública a que o Link foi submetido pela imprensa, tinha muito mais a ver com a sua nacionalidade e relação anterior de emprego do que com a frustração com os resultados exploratórios da Petrobras. Afinal, ainda estava muito viva na memória de parcela da população brasileira as ações praticadas ou patrocinadas pela Standard Oil e pelo governo dos EUA contra a independência petrolífera do Brasil – os registros históricos da época são ricos em exemplos -, ações essas que contribuíram decisivamente para desencadear a campanha “O Petróleo É Nosso” que, não obstante vitoriosa, não fez cessar as investidas nos anos seguintes e que se verificam até nos dias atuais.




