No país do futebol, a engenharia entrou em campo para orgulho da Nação

No país do futebol, a engenharia entrou em campo para orgulho da Nação

Maracanã na atualidade. Crédito: Fernando Maia/Riotur
No país do futebol, a engenharia entrou em campo para orgulho da Nação
Maracanã: Futebol e Engenharia

Com mais de 70 anos de história, Estádio do Maracanã foi um dos maiores feitos dessa atividade no país

Terminada a Segunda Guerra Mundial, a FIFA retomou suas atividades interrompidas durante do conflito e bateu o martelo: a próxima Copa do Mundo seria realizada no Brasil, em 1950. No entanto, o país não tinha sequer um estádio a altura de uma competição dessa envergadura e precisava correr contra o tempo para entregar um equipamento esportivo que impressionasse o mundo e atendesse o público apaixonado pelo futebol. Foi um desafio e tanto principalmente para arquitetos e engenheiros, que conseguiram erguer não só um estádio monumental, como o maior do mundo até então. Hoje, 76 anos após sua inauguração, o Maracanã continua sendo um orgulho para a engenharia nacional, por proporcionar grandes espetáculos não só no gramado como em palcos montados para grandes shows, o que lhe confere uma mística única de um verdadeiro templo.

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Tapumes ainda acompanhavam os jogos e obras continuaram após inauguração. Crédito: Wikimedia Commons

Mas sua construção não foi isenta de polêmicas. Pelo contrário. Toda proposta e sua configuração foram alvo de acalorados debates. A começar por sua localização. Quando a Prefeitura do Rio de Janeiro decidiu em 1946 que o município, então Distrito Federal, iria construir o estádio, travou-se uma batalha na imprensa e na opinião pública entre a escolha do terreno às margens do Rio Maracanã e a baixada de Jacarepaguá, na Zona Oeste. De um lado estava o jornalista Mário Rodrigues Filho, irmão do escritor Nelson Rodrigues, que comandava o Jornal dos Sports. Do outro, o também jornalista e na época deputado federal Carlos Lacerda, que apostava no desenvolvimento da região mais distante do Centro. Acabou vencendo a proposta baseada no projeto de lei do vereador e compositor popular Ary Barroso, de localização no antigo Derby Club, um hipódromo que estava praticamente desativado, por sua facilidade de acesso aos torcedores, que poderiam até usar o trem para chegar ao local e voltar para casa.

A decisão não eliminou por completo as discussões e polêmicas em torno da ideia. A região era muito sujeita a alagamentos e o projeto tinha esse fator como um risco que precisava ser eliminado. A questão era tão sensível que foi um dos motivos para a rejeição do projeto feito por ninguém menos do que o arquiteto Oscar Niemeyer. Seu desenho, apresentado inicialmente em 1941 ao governo do Estado Novo, previa um campo em 13 metros abaixo da cota zero do terreno. O objetivo era facilitar a visão do público e uma estrutura que agilizasse ao máximo a entrada e a saída das pessoas, mas sua ideia foi considerada inviável. Posteriormente, em entrevista, o próprio considerou a concepção vencedora como melhor. Quem ganhou foram os arquitetos Miguel Feldman, Waldir Ramos, Oscar Valdetaro, Rafael Galvão, Orlando Azevedo, Antônio Dias Carneiro e Pedro Paulo Bernardes Bastos.

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Jogo da Copa de 1950. Crédito: Arquivo Nacional/Wikimedia Commons

A comissão julgadora tomou uma decisão salomônica: criticou itens dos três principais projetos vencedores e determinou aos melhores que se unissem, criando praticamente um novo a partir de parâmetros pré-definidos. “É partindo destes parâmetros que, em conjunto com o cruzamento de soluções contidas nos projetos originais, se consolidaram diversas características formais do Estádio a ser construído. Sua localização no terreno (próximo à linha ferroviária), seu formato elíptico, o acesso por grandes rampas monumentais, a cota de implantação do gramado, debatida pela vulnerabilidade do terreno ao alagamento (fator que passou de problema de projeto à solução urbana), a diferenciação das arquibancadas por classe, os parâmetros de segurança e conforto, entre outras questões, foram determinados de forma coletiva por membros da comissão, onde constavam urbanistas, juristas, membros da Confederação Brasileira de Desportos, jornalistas e arquitetos, assim como pelos projetistas responsáveis por dar a forma definitiva ao projeto”, explica o pesquisador Guilherme Erthal Paiva Antunes, em sua dissertação no Prourb/FAU/UFRJ. 

O trabalho colegiado acabou trazendo soluções inovadoras e que são admiradas até hoje. A começar pelas rampas de acesso, com uma inclinação suave, em 10 graus, que anteciparam padrões de acessibilidade. A estrutura original destacava-se por seu formato oval ou elíptico em concreto armado com dois níveis principais de arquibancada contínua: o anel superior e o anel inferior. Em suas dimensões, o estádio foi concebido para ter 32 metros de altura, o que equivale a um edifício de cerca de 10 andares, e eixos de 317 e 279 metros. O tamanho do gramado era de 110 x 75 metros e até hoje popularmente medidas de área no Brasil nem sempre são calculadas em acres ou alqueires, mas sim em quantidades de campos do Maracanã. Mas famosa também ficou a estrutura em concreto armado, composta por enormes pilares radiais que dão apoio às vigas invertidas em T que sustentam lajes inclinadas das arquibancadas e do piso do anel superior. Era também notável a antiga marquise do Maracanã, inteiramente de concreto armado. Essa estrutura tinha uma área de 24.000 metros quadrados e foi considerada um marco da engenharia da época por ser sustentada em balanço, ou seja, sem pilares de sustentação na parte da frente, criando uma grande cobertura “flutuante” sobre as arquibancadas.

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O presidente Eurico Gaspar Dutra na Abertura da Copa do Mundo de Futebol de 1950. Crédito: Arquivo Nacional/Wikimedia Commons

Conforme pontuou o jornalista João Máximo, no livro “Maracanã 60”, as polêmicas em torno da construção continuaram, até porque  muitos questionavam a validade de um investimento de tal monta. Falava-se na época; Por que não priorizar escolas ou hospitais? Enquanto outros defendiam uma simples ampliação do estádio de São Januário, do Vasco, cujo formato comparado a uma ferradura de cavalo em semicírculo, poderia ser complementado, formando um círculo. O fato é que a população acabou se empolgando com a proposta de um estádio para até 155 mil pessoas e todo o esforço foi feito para se concluir a obra a tempo.

“Diferenças superadas, em 20 de janeiro de 1948, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro, a pedra fundamental foi lançada, mas só seis meses depois as obras tiveram início. Trabalhou-se dia e noite para que fossem concluídas antes da abertura da Copa do Mundo (o que não foi possível, já que armações de madeira ainda espalhavam-se pelas arquibancadas no dia de Brasil x México, o primeiro jogo). Houve duas inaugurações, ambas à brasileira. A primeira, em 6 de junho, para as orgulhosas autoridades que se viam como parte daquilo tudo (o prefeito conseguiria que o estádio tivesse seu nome, Angelo Mendes de Moraes, o que, por pressão popular, vigoraria por pouco tempo). A segunda inauguração, no dia seguinte, com direito a banda de música e bandeiras desfraldadas, deu-se num amistoso entre seleções de novos do Rio e de São Paulo, vencido por esta: 3×1.”, conta Máximo.

A obra durou 665 dias até a abertura para a realização de jogos, o que só foi possível graças à atividade incansável dos operários, que trabalhavam em três turnos. Em média, o projeto empregou cerca de 3 mil operários durante os trabalhos. Grande parte dos desafios foram superados graças também ao empenho do engenheiro que coordenou as obras, o coronel do Exército Herculano Gomes, o escolhido para comandar a autarquia Adem (Administração do Estádio Municipal), órgão que seria mais tarde substituído pela Suderj. Ele largou sua casa e sua família no Jardim Botânico e passou a morar no canteiro de obras, para acompanhar tudo de perto. 

De fato, o estádio consumiu recursos vultosos. Foi orçado inicialmente em 150 milhões de cruzeiros e acabou saindo por 200 milhões, segundo estimativas. Mas para ajudar a custeá-lo, houve também uma solução inovadora. Foram postas à venda 30 mil cadeiras cativas, o que hoje em dia equivaleria a um crowdfunding. Os gastos foram altos muito em virtude dos processos sistemáticos de concretagem e montagem. Para se ter uma ideia, apenas as fundações preliminares consumiram uma quantidade imensa de materiais e mão-de-obra, e foi necessário bombear cimento a grandes alturas. A logística de 80.000 m³ de concreto (segundo alguns relatos) e a movimentação de milhares de toneladas de aço representaram desafios notáveis em transporte e cura do material. A obra consumiu 464.950 sacos de cimento, 45.757 metros cúbicos de areia, além de mais de dez milhões de quilos de ferro, 193.000 pregos e quase um milhão de tijolos.

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Partida entre Fluminense e Vasco em 2023. Crédito: Creative Commons

Segundo o livro “Maracanã- A saga do mais importante templo do futebol mundial, das obras de 1948 à reforma de 2013”, o projeto deslumbrou também pela modernidade. O novo estádio tinha “uma perfeita instalação de refletores. Esses projetores, ao contrário dos antigos, em uso normal nos nossos campos e no estrangeiro, são em número de 220; cento e dez de cada lado do campo, com um espaço de um metro, seguindo o comprimento natural do gramado. Também foi prevista uma estação de som de 4.000 watts, aproximadamente, distribuídos através de 254 alto-falantes. Há som dirigido para o campo, para as arquibancadas, para a circulação interna e para as partes externas.”

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Nova configuração provocou polêmicas. Crédito: Alexandre Macieira/Riotur

Mesmo funcionando com tapumes inicialmente, o Maracanã cumpriu seu papel brilhantemente para a realização da Copa de 1950, que ficaria marcada pela derrota do Brasil para o Uruguai por 2×1, no famoso “Maracanazo” de 16 de julho. Na ocasião, a capacidade máxima oficial também foi desafiada e o estádio recebeu quase 200 mil pessoas, que ficaram praticamente mudas diante do que viram. Mas o silêncio da torcida, que marcou aquela fatídica data, não seria a tônica nos anos seguintes, em que o estádio foi palco de partidas memoráveis, estreladas brilhantemente por Pelé e Garricha e depois por outros craques como Rivelino, Zico e Dinamite. Também foi cenário de grandes shows, como de Frank Sinatra, Madonna, Tina Turner, Paul McCartney e muitos outros. 

Em 2010, o estádio passou por uma profunda reestruturação para se adequar às exigências da FIFA para a Copa de 2014, sendo reinaugurado três anos depois. Houve a demolição parcial de suas arquibancadas e marquise, que foi substituída por uma membrana tensionada. O limite de público, que já estavam em 86 mil, caiu para 78.838 lugares. Antes disso, o estádio já tinha passado por mudanças para a realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007, quando foi extinta a Geral, setor de ingressos populares, substituída por cadeiras. As alterações provocaram forte polêmica, não só pela redução da capacidade de público e elitização, mas pela descaracterização do projeto original tanto internamento, como no seu exterior.

A favor dessas modernizações, não faltam argumentos que pregam por maior segurança e conforto para os espectadores e também realçam a importância da recuperação estrutural feita, dando maior estabilidade ao estádio. Por outro lado, há quem critique as transformações, que limitaram o acesso ao equipamento esportivo a um público mais elitizado e deixou os eventos um tanto quanto mais comportados, sem a espontaneidade de antes. Porém, o estádio continua sendo o maior templo do futebol do mundo e um orgulho para a engenharia brasileira.

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