Nas últimas décadas, a questão climática avançou de alguns alertas de cientistas e ambientalistas para a emergência de catástrofes climáticas em quase todo o planeta. Secas, tempestades, calor intenso ou frio congelante. O clima está reagindo ao aumento médio da temperatura do planeta com a violência dos furacões, das enchentes e das extinções em massa.

por Dal Marcondes, especial para a Envolverde

 

O Brasil tornou-se protagonista relevante no debate ambiental a partir de 1992, quando o país foi sede da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (ECO-92 ou Rio-92). Desta conferência surgiu a Carta da Terra, um documento, proposto durante a Rio-92, com diretrizes para uma sociedade global pacífica, justa, sustentável.

Também foi na Rio-92 que surgiu o embrião das COPs, (sigla que significa Conference of the Parties, que em tradução livre para o português significa Conferência das Partes) uma convenção anual criada pela ONU em 1994, onde os países têm a oportunidade de dialogar para planejar por meio de ações de mitigação e adaptação de intervenções humanas danosas ao sistema climático planetário.

Em 1995 foi realizada a primeira COP do Clima, em Berlim, na Alemanha. A partir daí já foram realizadas já 28 COPs. Este ano acontecerá a COP-29, em Baku, capital do Azerbaijão e, em 2025 a COP 30 será realizada em Belém, no Pará. Será a primeira vez que uma COP acontecerá na Amazônia, onde a floresta é um dos principais fatores para o equilíbrio climático do planeta.

A emergência climática no Brasil

No Brasil, as sucessivas crises ambientais têm demonstrado que as previsões que levaram à criação da COPs, em 1994 estavam certas. Em 2020 o Pantanal, no Centro-Oeste brasileiro, sofreu com o maior incêndio de sua história, com imensa destruição de fauna e flora em uma das maiores regiões alagadas do mundo. Em 2023 foi a vez da Amazônia, a maior floresta tropical do planeta passou por uma seca extrema, que secou os rios e deixou populações sem acesso a transportes por cursos d’água e sem água potável. Isso, além dos casos de Mariana e Brumadinho, causados diretamente pela irresponsabilidade de grandes empresas. As enchentes e deslizamentos na cidade de São Sebastião, no estado de São Paulo, foram uma prévia do estava por vir no Rio Grande do Sul. Em apenas um mês, em maio de 2024 choveu no estado 486,7mm. A média normal para esse período do ano em todo o estado é de 140 a 180 mm, dependendo da região.

O berço de um dos mais importantes ambientalistas brasileiros, José Lutzenberger, está assistindo ainda nesta semana do meio ambiente de 2024 uma das maiores tragédias ambientais já vividas no Brasil. O Rio Grande do Sul tem mais de 800 pessoas feridas e cerca de 637,4 mil pessoas fora de casa, incluindo quem está em abrigos e quem está na casa de parentes ou amigos.

Os números da tragédia

Mortos: 171
Desaparecidos: 53
Feridos: 806
Pessoas em abrigos: 48.789
Pessoas desalojadas: 581.638
Pessoas afetadas: 2.345.400
Pessoas resgatadas: 77.712
Animais resgatados: 12.521
Municípios afetados: 469 (de 497)

Dados parciais do final de maio/24

Os alertas ignorados

Desde a Eco-92 os alertas sobre as consequências do desmatamento generalizado e do aumento das emissões de carbono na atmosfera vêm ganhando escala no Brasil e no mundo. Em 2015, na COP 21, realizada em Paris, 195 países assinaram o Acordo de Paris, onde concordaram em realizar esforços para mantes a elevação da temperatura média global em um máximo de 2ºC, mas com um esforço adicional para conseguir conter o aquecimento em um máximo de 1,5ºC.

Desde então, apenas na Amazônia, o desmatamento saiu de uma cifra já alarmante de 3.323 km² de florestas derrubadas em 2015, para inacreditáveis 10.781 KM² em 2022, com valores ascendentes em todo o período. Em relação às emissões de carbono, fala-se muito das alterações que vêm desde a revolução industrial, na virada dos séculos 18 para o 19. No entanto, perto de 53% de toda a emissão de CO² na atmosfera aconteceu nos últimos 30 anos, segundo dados do Global Carbon Project.

E, nesse período de aceleração da degradação ambiental, não se podia mais alegar ignorância dos efeitos deletérios do aquecimento do planeta. Mesmo muito antes das previsões dos cientistas do século 20 em meados do século 17, o filósofo holandês Baruch Spinoza afirmou: “a natureza não tem senso moral, a natureza tem consequência”. Ao que parece, este século 21 é o tempo das consequências.

Em 2015, em um vídeo distribuído pelo distribuído pela WWF no movimento “Hora do Planeta” aparece a imagem do então presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, com um alerta: “nós somos a primeira geração a sentir o impacto das mudanças climáticas, e a última que pode fazer alguma coisa a respeito”.

Momento de inflexão

A tragédia que se abateu sobre os brasileiros do Rio Grande do Sul deve ser o momento de inflexão para as políticas de combate à emergência climática no Brasil. O mundo também tem seus indutores da mudança, como enchentes na Europa, calor extremo em regiões dos Estados Unidos e África e grandes incêndios florestais nas mais diversas regiões do planeta, além dos alertas globais de uma provável elevação catastrófica do nível dos oceanos.

Os custos da reconstrução do Rio Grande do Sul

A reconstrução do Rio Grande do Sul, estado que representa 6,1% do Produto Interno Bruto do Brasil, com o PIB interno de R$ 640,30 bilhões em 2023, e mais de 6% do PIB industrial brasileiro pode custar, segundo estimativas conservadoras, mais de R$ 100 bilhões. Além da recuperação do mais importante parque vinícola do país e de 46 mil empresas industriais, cerca de 10% das indústrias do Brasil. Isso sem falar na produção agrícola, especialmente a de arroz, já que o estado representa quase 70% de tudo o que é produzido desse cereal.

O impacto atinge o setor público e a população de formas diferentes. Enquanto os governos, em todos os níveis, precisam recuperar as infraestruturas como um todo, as pessoas começam, neste início de junho, a tentar recuperar suas vidas. Dados da Confederação Nacional das Seguradoras apontam, por exemplo, que a enchente danificou cerca de 200 mil veículos e que um enorme percentual pode ter perda total. Mas o dado impactante para o cidadão gaúcho é que apenas cerca de 20% deste total tem seguros com cobertura para enchentes.

Além disso, as primeiras informações dos municípios mais atingidos apontam que mais de 100 mil residências foram destruídas em um único evento climático. Esse dado, além de desesperador para a sociedade gaúcha, deve servir como alerta para o restante do país. Uma pesquisa realizada pela Casa Civil e pelo Ministério das Cidades revela que 1.942 municípios brasileiros, o que dá um terço das cidades brasileiras com áreas onde a população está exposta a riscos como deslizamentos, enxurradas e enchentes. São 8,9 milhões de pessoas que podem ser afetadas por eventos extremos a qualquer momento, uma vez que os modelos climáticos do passado não servem mais para a previsão do futuro.

O cenário do Rio Grande do Sul é o alerta maior que os governantes de Brasília, dos estados e das cidades podem ter. Os custos humanos, financeiros e ambientais são infinitamente maiores do que custariam os investimentos em prevenção. Cientistas e organizações sociais estão a postos levantando dados e oferecendo alternativas para os atuais modelos de desenvolvimento e ocupação do solo, especialmente nos espaços urbanos. Há muito conhecimento disponível na academia, institutos de pesquisa e organizações dedicadas ao conhecimento climático.

No próximo ano, em Belém, durante a COP30, o Brasil terá de demonstrar que apendeu a lição do Rio Grande do Sul. Lá estarão mais de 190 países e centenas de organizações e empresas interessadas em mostrar seus saberes e alternativas para a construção do futuro.

A questão é, de que tipo de futuro estaremos falando?

Fonte:  envolverde

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