Guerra no Irã expõe disputa por energia e acelera debate sobre transição energética

Inauguração Ilha de Policogeração Sustentável. CT-2, COPPE, UFRJ, 23/05/2022

Estudo da UFRJ mostra como discussão sobre energia deixou de ser pauta ambiental para ocupar posição central nas disputas geopolíticas do século XXI

A escalada do conflito envolvendo o Irã recolocou a pauta energética no centro da geopolítica mundial quando, no início deste ano, Estados Unidos e Israel bombardearam o país. Segundo os deflagradores do conflito, os ataques foram uma resposta ao avanço do programa nuclear iraniano, algo que muito rapidamente gerou efeitos globais a partir do bloqueio do Estreito de Ormuz – passagem marítima crucial na região, por onde passam 20% da produção mundial de combustíveis fósseis. Na primeira semana de conflito, o preço do petróleo subiu 17%, enquanto os valores do gás natural se elevaram em cerca de 59%.

Em um cenário no qual, de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês), apenas 15% da matriz energética mundial é renovável, modelos de transição energética tornam-se cada vez mais urgentes, a fim de liberar a economia mundial da volatilidade dos conflitos por petróleo. Um movimento como esse exigiria a mudança geral nos sistemas de produção e consumo de energia, substituindo fontes como gás, carvão e petróleo por fontes renováveis. Dentre as opções, estão a energia eólica, solar, de biomassa e geotérmica.

Para pesquisadores do Grupo de Estudos do Setor Energético (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a guerra vai além das disputas militares, revelando sobretudo a disputa estratégica pelo controle do petróleo e do gás natural em um momento de incertezas sobre a transição energética. No artigo “A Guerra do Irã e a transição energética”,publicado no site de notícias Broadcast Energia, os professores Nivalde de Castro e Vitor Santos, do Instituto de Economia (IE) da UFRJ, analisam os impactos da guerra sob a perspectiva da geopolítica energética. No texto, eles evidenciam a vulnerabilidade dos países dependentes de combustíveis fósseis e como isso torna ainda mais necessária a aceleração da transição energética.

Segundo os autores, o bloqueio do Estreito de Ormuz ameaça a oferta de petróleo e aumenta a volatilidade dos preços da energia. Na avaliação de Castro, a dependência de combustíveis fósseis ajuda a explicar por que conflitos internacionais provocam impactos econômicos tão amplos. “Todo mundo consome, mas poucos produzem”, afirma. “Diante disso, se a produção cair, quem irá atender a demanda mundial? Por isso temos preços tão voláteis e um impacto imenso na inflação”, explica Castro.

O professor destaca ainda que, apesar do avanço das energias renováveis, mais de 80% da matriz energética ainda depende de carvão, petróleo e gás natural. Essa concentração faz com que países produtores tenham grande influência sobre os preços e a segurança energética internacional. “Os Estados Unidos são hoje o maior produtor do mundo. Ao desestabilizar regiões produtoras, eles ampliam o próprio poder de mercado”, comenta o pesquisador do IE. Diante desse cenário, realizar uma transição robusta nos meios de produção de energia é mais do que uma política ecológica, é uma estratégia de segurança energética internacional.

Os impactos imediatos do conflito aparecem no aumento dos preços. No entanto, de acordo com os professores, as consequências vão além do curto prazo, criando um cenário de instabilidade que afeta principalmente países como China, Japão e integrantes da União Europeia. Para Castro, a guerra também evidencia a disputa entre dois projetos energéticos distintos. Enquanto países importadores aceleram investimentos em fontes renováveis para reduzir vulnerabilidades, os Estados Unidos vêm fortalecendo uma política que o pesquisador chama de “destransição energética”.

Esse movimento já influencia decisões globais. Petroleiras internacionais teriam reduzido investimentos em energias renováveis após mudanças na política energética dos Estados Unidos. “Para que investir em transição energética se eu sou o maior produtor de petróleo e gás do mundo?”, questiona o professor, ao comentar a estratégia do governo republicano estadunidense. Apesar disso, Castro avalia que o avanço da transição energética continua inevitável para países que dependem da importação de combustíveis fósseis. “A estratégia para aumentar a segurança energética é investir em transição”, diz.

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição considerada privilegiada. Para os pesquisadores, o país reúne características raras entre grandes economias: possui petróleo, gás natural e forte potencial em fontes renováveis, como hidrelétrica, solar e eólica. “O Brasil tem segurança energética. Poucos países do tamanho do Brasil têm petróleo, gás, água, vento, sol, terra e capacidade de produção como nós temos.” Segundo o professor Castro, o principal desafio brasileiro é diminuir a dependência de cadeias produtivas, como diesel e fertilizantes: “O Brasil precisa olhar para aquilo que ainda importa e buscar autonomia produtiva”, defende.

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