Em palestra para o Conselho Diretor, capitão de corveta Idalba Souza dos Santos, da Diretoria de Engenharia Naval, abordou diferentes cenários
Para conter o aquecimento global e as mudanças climáticas, o mundo se depara com o desafio de paulatinamente substituir o uso de combustíveis fósseis por outras fontes de energia menos poluentes. A busca por soluções que reduzam as emissões dos chamados Gases de Efeito Estufa também envolve a Marinha do Brasil, que utiliza diesel marítimo para movimentar sua frota. A força militar vem realizando estudos sobre os combustíveis menos poluentes e os impactos tecnológicos da transição energética, cujo panorama foi exposto ao Conselho Diretor do Clube, em palestra da capitão de corveta Idalba Souza dos Santos, vinculada à Diretoria de Engenharia Naval.
Foram abordados os principais pontos sobre “Os desafios da descarbonização marítima para a Marinha do Brasil”. A força vem avaliando as diversas fontes alternativas de energia e como elas se enquadram em suas operações e no funcionamento de sua frota, tanto auxiliar quanto de combate. É uma corrida contra o tempo, tendo em vista os compromissos do país assumidos no Acordo de Paris (2015) e as diretrizes estabelecidas pela IMO (International Maritime Organization), órgão ligado à ONU. As metas são rígidas e preveem uma redução das emissões pelo setor de pelo menos 20% até 2030. Em 2040, esse percentual precisa atingir 70% e em 2050, a meta é zerar o saldo de emissões. Isso levando em conta todo o ciclo de vida dos combustíveis.
A tarefa de substituição não é simples, tendo em vista que o uso de combustíveis não fósseis sequer está regulamentado no Brasil para a frota marítima. No cenário internacional, as experiências são incipientes nas Marinhas de Guerra, segundo a capitão, tendo os Estados Unidos, Itália, Alemanha, Espanha e Coreia do Sul, por exemplo, já iniciado o processo de transição. As dificuldades não impediram, entretanto, a Marinha de iniciar os estudos sobre as alternativas e a traçar cenários para os próximos anos.
Na avaliação da Diretoria de Engenharia Naval, a grande maioria dos combustíveis alternativos exigirá adaptações nas embarcações, com exceção do chamado diesel verde, que tem propriedades químicas semelhantes ao derivado do petróleo, o que praticamente não exigiria mudanças nos navios e nas rotinas de manutenção e abastecimento. Ele também é conhecido pela sigla HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), e é produzido a partir de fontes vegetais, gorduras animais e resíduos de alimentos.
No entanto, o Brasil ainda não o produz. Seu preço elevado, na atualidade, é um obstáculo, mas o fato de sua produção ser em biorrefinarias também voltadas para o bioquerosene para a aviação pode gerar uma competição econômica desigual. Projetos para instalação no país de plantas para sua produção podem mudar esse cenário, tornando esse combustível mais acessível.



A Marinha também avaliou outras fontes, como a amônia, considerada tóxica e corrosiva, e o hidrogênio, que peca pelas dificuldades de armazenamento e segurança. O gás natural também geraria riscos elevados. São também fontes que não estão totalmente livres de emissões de CO2, na produção ou na queima.
“Apesar de a Marinha Mercante, navio da unidade civil, vislumbrar todos esses combustíveis, é um pouco mais difícil quando pensamos em navio militar. Um exemplo, é o fato de levar armas e equipamentos específicos que ocupam mais espaço, o que é sagrado em caso de navios de guerra. Se aumentar o espaço para tanque é uma desvantagem. E quando usamos gás inflamável, por exemplo, vira uma bomba relógio”, alertou a capitão.
Pela sua maior oferta, o biodiesel, o etanol e o metanol tendem a ser mais viáveis a curto prazo e até virarem os combustíveis indicados para os navios a serem encomendados em pouco tempo. No entanto, eles exigirão maior atenção à manutenção das embarcações e adaptações, como em juntas de vedação, e no armazenamento para garantir maior durabilidade.
“Hoje a Marinha tem o posicionamento de manter o acompanhamento da evolução do mercado dos combustíveis alternativos para que veja o que possa ser trazido como solução interna para descarbonizar. Considerando também a especificação de uso de biocombustíveis para que sejam adquiridos principalmente para os navios auxiliares não usados em combate”, explicou a capitão.
A engenharia também está sendo útil à Marinha no que diz respeito à projeção de navios mais eficientes, o que também deve contribuir com as metas de redução das emissões. Melhores condições hidrodinâmicas dos cascos, por exemplo, ajudam numa queima menor por deslocamento, bem como o uso de rotas mais favoráveis.



