Em 121 anos, a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) não havia recebido ainda a contribuição de uma engenheira em sua direção. Apenas em 2014, a engenheira civil Liedi Légi Bariani Bernucci, atual vice-reitora da USP, rompeu esse tabu como a primeira vice-diretora de uma das mais tradicionais unidades de ensino superior em Engenharia do país. E quatro anos depois, seria eleita para liderar a entidade. Em março deste ano, a engenheira eletricista Anna Reali tomou posse como a segunda diretora da Poli-USP. “Um compromisso com o futuro de São Paulo e do Brasil”, diz, na entrevista a seguir.
Descritos em seus principais programas e projetos ao final da entrevista, os nove principais campos da atuação estratégica da entidade podem ser representados pelo recém-inaugurado OTIC – Offshore Technology Innovation Centre, criado para desenvolver soluções sustentáveis para a indústria de petróleo, gás e energia renovável no mar. Apenas esta nova parceria da Poli com a Shell Brasil, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP detém cinco programas técnicos e 24 projetos de pesquisa. Ele passa a integrar um conjunto de centros de excelência que formam o Centro de Ciência de Dados, dirigido por Anna.
Especialista em IA e Aprendizagem por Reforço em Robôs, tendo iniciado sua experiência acadêmica na Alemanha e participado do “Guaraná”, time vice-campeão da RoboCup 1998, em Paris, ela considera que a Inteligência Artificial é um dos instrumentos para alcançar novas expectativas na formação da Poli. “A revolução digital já é uma realidade nos canteiros de obra, nas indústrias e nos laboratórios. Inteligência Artificial e Machine Learning deixaram de ser ficção para se tornar ferramentas de otimização de processos. A Internet das Coisas (IoT) conecta infraestruturas e dá vida à Indústria 4.0, enquanto tecnologias emergentes como computação quântica e blockchain começam a mostrar seu potencial disruptivo. Na Poli-USP, centros de inovação e parcerias estratégicas com empresas de tecnologia já colocam estudantes e pesquisadores na fronteira desse conhecimento”.

As credenciais acadêmicas e gestoras de Anna Reali incluem pós-doutorado na Carnegie Mellon University (EUA) e parcerias institucionais de relevo e compromisso com essa relação entre a computação e a Engenharia, participando ativamente de iniciativas estratégicas, como a elaboração da Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) junto ao MCTI (2023-2025), o IFAC Technical Committee on Intelligent Autonomous Vehicles (2007-2016) e o Comitê Técnico de Robótica da Sociedade Brasileira de Automática (SBA). Confira a seguir outras considerações da diretora.
Confea – A senhora é a segunda diretora da Poli. O que isso representa para a entidade e para o ensino, a pesquisa e a extensão do país?
Diretora da Poli-USP, Anna Reali – Estar à frente da Poli no ano em que completamos 133 anos é muito mais que um desafio de gestão; é um compromisso com o futuro de São Paulo e do Brasil. Nossa história se confunde com o próprio progresso do país. Desde 1893, ajudamos a transformar São Paulo em um polo tecnológico, unindo o rigor técnico à audácia de inovar. Onde há desenvolvimento, existe o DNA politécnico. Do nascimento do IPT e da parceria histórica com a Marinha, até grandes obras como Itaipu e o Metrô. Criamos o primeiro computador brasileiro e, hoje, lideramos a transição para a energia sustentável. A Poli é uma comunidade vibrante, que tem números grandiosos: 15 departamentos, 12 programas de pós-graduação, 17 cursos de Engenharia, quase 5 mil alunos de graduação e mais de 30 mil engenheiros formados. E hoje a Poli vive um momento histórico. Ser liderada por mulheres, como na atual gestão, envia um sinal claro para o futuro: a engenharia brasileira precisa de múltiplas perspectivas para ser inovadora. Aumentar a diversidade no setor é fundamental para criar soluções que atendam a toda a população.
Confea – Como a senhora percebe a atuação feminina no mercado de trabalho da engenharia?
Diretora da Poli-USP, Anna Reali – Vejo que a participação feminina na Engenharia no Brasil ainda é muito tímida. Atualmente aqui na Poli temos cerca de apenas 20% de mulheres no nosso corpo discente e 15% no corpo docente. Esses números são semelhantes nos outros cursos de engenharia no Brasil. Vale notar que esses números variam entre os cursos de engenharia: por exemplo, na engenharia ambiental é um pouco maior, enquanto que na engenharia civil é menor. Vários fatores influenciam essa baixa participação feminina na Engenharia: fatores histórico-culturais, já que a engenharia foi tradicionalmente vista como uma carreira “masculina”, e estereótipos de gênero ainda influenciam escolhas desde a infância; falta de referências femininas, com escassez de professoras e engenheiras em destaque, reduzindo modelos inspiradores para jovens mulheres; ambiente acadêmico e profissional muitas vezes hostil ou não inclusivo. Entretanto, há tendências positivas.
Empresas como a Votorantim Cimentos já têm 33% de engenheiras em seus quadros, mostrando que mudanças corporativas são possíveis. Independente da questão de gênero, nota-se que atualmente o ensino de engenharia e a demanda por engenheiros no Brasil vivem um cenário paradoxal: alta demanda do mercado, mas queda acentuada na formação de novos profissionais.
O Brasil está diante de uma crise silenciosa nas engenharias: o mercado precisa urgentemente de profissionais qualificados, mas o sistema educacional não está conseguindo atrair ou reter estudantes em ritmo suficiente. Reverter esse quadro exigirá melhorias na qualidade do ensino fundamental e médio (especialmente em exatas), incentivos à carreira de engenheiro e modernização dos currículos para incluir temas como sustentabilidade, transformação digital e inovação.



