Reitor articula ciência, inovação e democracia como pilares estratégicos para o Brasil contemporâneo
Na aula, Medronho apresentou dados sobre o investimento mundial em pesquisa e desenvolvimento, que já ultrapassa US$ 2 trilhões, com liderança concentrada em Estados Unidos e China. Foto: Sonia Toledo (SGCOM)
A soberania nacional, no século XXI, deixou de ser medida apenas por fronteiras físicas e passou a depender da capacidade de produzir conhecimento e dominar tecnologias críticas. Foi a partir dessa inflexão conceitual que o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Medronho, estruturou a aula magna apresentada nesta segunda-feira (27/4), no Clube de Engenharia, no Rio de Janeiro.
Diante de uma plateia formada por conselheiros da instituição e por sua diretoria — presidida por Francis Bogossian, engenheiro civil, ex-aluno e ex-professor da Escola Politécnica da UFRJ —, Medronho defendeu que ciência, tecnologia e inovação constituem hoje a base do poder global e da autonomia dos países.
“O domínio de tecnologias críticas é decisivo para reduzir a dependência externa em setores estratégicos”, afirmou o reitor, ao sintetizar o argumento central de sua exposição.
Ao longo da apresentação, Medronho destacou uma transformação estrutural no conceito de soberania. Se antes ela estava associada ao controle territorial e à capacidade militar, hoje se vincula à produção científica e ao domínio tecnológico. “Quem depende tecnologicamente de outro país perde autonomia e, muitas vezes, perde soberania”, disse.
O reitor ressaltou que áreas como inteligência artificial, semicondutores e produção de vacinas se tornaram centrais nesse novo cenário. Diante desse contexto, dados, algoritmos e infraestruturas digitais passam a configurar “novos territórios de poder”, ampliando o conceito tradicional de fronteiras.
A aula também trouxe dados sobre o investimento mundial em pesquisa e desenvolvimento, que já ultrapassa US$ 2 trilhões, com liderança concentrada em Estados Unidos e China. O contraste com o Brasil foi um dos pontos de maior ênfase.
Segundo Medronho, enquanto as grandes potências ampliam continuamente seus investimentos, o Brasil mantém níveis relativamente estáveis, o que limita sua capacidade de competir internacionalmente. “Escala é poder. E hoje nós estamos muito aquém do necessário para acompanhar essa corrida global”, pontuou.
Ele destacou ainda que, apesar das restrições orçamentárias, o país mantém uma produção científica relevante, resultado da base construída nas universidades públicas.
A experiência recente da pandemia de covid-19 foi utilizada como exemplo concreto da importância da soberania científica. Medronho relembrou episódios de restrição de acesso a equipamentos e insumos, que evidenciaram a vulnerabilidade de países dependentes. “Não é mais uma questão de se teremos outra pandemia, mas de quando ela virá. E precisamos estar preparados”, afirmou.
Ele citou iniciativas desenvolvidas no país, como a criação de respiradores por pesquisadores brasileiros, que, segundo ele, esbarraram na ausência de articulação com a indústria para produção em escala.
Outro eixo central da fala foi a defesa de um modelo sistêmico que integre educação, ciência, tecnologia e inovação como política de Estado, e não apenas de governo. “A base é a educação, mas é preciso conectar o conhecimento à aplicação tecnológica e à transformação econômica”, explicou.
Nesse sentido, o reitor criticou a fragmentação de recursos para pesquisa e defendeu maior articulação entre universidades, setor produtivo e poder público. “Temos que sentar com a indústria, superar preconceitos e construir soluções conjuntas para os problemas do país”, disse.
A aula também foi marcada por referências ao papel histórico do Clube de Engenharia na defesa da democracia e por reflexões sobre o contexto político brasileiro. “A democracia é fundamental. Só quem não viveu períodos autoritários pode duvidar disso”, afirmou Medronho.
Para ele, o desenvolvimento científico e tecnológico está diretamente associado à estabilidade institucional e à continuidade de políticas públicas.
Ao encerrar a exposição, o reitor reforçou que a soberania nacional, no mundo contemporâneo, depende da capacidade de produzir conhecimento e transformá-lo em inovação. “Ciência e tecnologia são hoje infraestrutura de poder. A soberania se constrói com conhecimento e inovação. E isso nasce nas universidades e nos institutos de pesquisa”, concluiu.
Estiveram presentes à aula magna o presidente do Clube de Engenharia, Francis Bogossian; o 1º vice-presidente, Fernando Otavio de Freitas Peregrino — que também atua como pró-reitor de Gestão e Governança (PR6) da UFRJ —; e a 2ª vice-presidente, Olga Cortes Rabelo Leão Simbalista, entre outros conselheiros.
Pela UFRJ, participaram ainda a pró-reitora de Graduação (PR1), Maria Fernanda Santos Quintela da Costa Nunes; o pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa (PR2), João Torres de Mello Neto; e a coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura (FCC), Christine Rutam
Fonte da Notícia: Medronho defende soberania tecnológica em aula no Clube de Engenharia – Universidade Federal do Rio de Janeiro



