UFRJ diploma estudantes e professores mortos e desaparecidos na ditadura

Cerimônia integrou as comemorações pelos 106 anos da Universidade e reuniu familiares dos homenageados em ato de memória, reconhecimento e reparação simbólica

Há cerimônias que celebram conquistas. Outras reconhecem ausências. Ao completar 106 anos, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) escolheu voltar a uma parte dolorosa de sua própria história para conceder, nesta quarta-feira, 9/9, diplomas póstumos a 24 estudantes e dois professores mortos e desaparecidos durante a ditadura militar.

Familiares receberam os documentos em nome daqueles que tiveram não apenas suas trajetórias acadêmicas interrompidas, mas também projetos, afetos e futuros arrancados pela violência de Estado. O ato deu continuidade a uma série de iniciativas da UFRJ voltadas à memória e à reparação e foi realizado deliberadamente como parte das comemorações pelo aniversário da Universidade, criada em 7/9/1920, com o nome de Universidade do Rio de Janeiro, a partir da reunião da Escola Politécnica e das faculdades de Medicina e de Direito.

“Queríamos que esta diplomação póstuma fizesse parte, sim, dos 106 anos da UFRJ, porque celebrar uma universidade é também reconhecer aqueles que lhe foram arrancados e os futuros que com eles foram interrompidos”, afirmou a coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura (FCC), Christine Ruta.

Para o reitor Roberto Medronho, a violência foi capaz de interromper aquelas vidas, mas não de apagar a passagem dos homenageados pela Universidade. “Aos nossos estudantes e professores mortos e desaparecidos, queremos dizer simbolicamente: vocês retornaram hoje para casa, para a Universidade, para nossos registros, para nossos corredores, para nossas memórias. Voltaram para nossas salas, para a nossa história e dela nunca mais sairão”, disse.

Dirigindo-se aos familiares, Medronho reconheceu também a demora da instituição em formalizar esse reconhecimento. “Perdoem-nos pela demora. Perdoem-nos pela demora. Esses diplomas deveriam ter chegado muito mais cedo”, afirmou. “Mais do que documentos acadêmicos”, disse o reitor, “os diplomas são documentos contra o esquecimento”.

Reparação que não encerra a busca por justiça

Entre os familiares presentes estava Gilberto Molina, irmão de Flávio Carvalho Molina, estudante de Química da UFRJ morto pela repressão em 1971. Para ele, as sucessivas homenagens realizadas pela Universidade representam reconhecimento e conforto para as famílias, mas não encerram uma história ainda marcada pela ausência de responsabilização.

“É sempre uma gota de justiça a mais”, resumiu. “Porque os responsáveis pelas mortes desses familiares continuam impunes. Acho que a justiça só vai se completar no dia em que esses assassinos forem punidos”.

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Gilberto Molina, irmão de Flávio Carvalho Molina, recebe o diploma póstumo das mãos de Marlice Aparecida Sípoli Marques, diretora do Instituto de Química (IQ/UFRJ) | Foto: Fábio Caffé (SGCOM/UFRJ)

A percepção de que o gesto institucional não é capaz de reparar integralmente as perdas atravessou também as falas da cerimônia. “Os diplomas entregues hoje não reparam o irreparável. Não devolvem os anos, os projetos, os encontros, os afetos, as pesquisas, as aulas”, afirmou Christine Ruta. Para ela, no entanto, os documentos devolvem publicamente aos homenageados “o direito de pertencer à história da Universidade Federal do Rio de Janeiro”.

A ideia de pertencimento está também na origem administrativa da iniciativa. A proposta elaborada pela Comissão da Memória e Verdade (CMV) da UFRJ, vinculada ao FCC, caracteriza a diplomação como uma ação de reparação simbólica às pessoas que tiveram vínculos com a Universidade e cujas perspectivas acadêmicas e profissionais foram ceifadas. Instalada em 2013, a CMV investiga os impactos da ditadura e as violações de direitos humanos sofridas pela comunidade universitária. A medida também atende a recomendações da Comissão Nacional da Verdade relacionadas ao reconhecimento das vítimas da ditadura e à promoção dos valores democráticos e dos direitos humanos na educação.

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Imagem do Caderno de Biografias – Anistia, Reparação e Memória, que reúne fotografias e histórias de estudantes da UFRJ mortos ou desaparecidos durante a ditadura militar. A publicação, produzida originalmente em 2009 pelo Serviço de Mídias Impressas, Virtuais e de Produção Editorial da então Coordenadoria de Comunicação da UFRJ, foi reeditada em 2024 pela Superintendência-Geral de Comunicação Social (SGCOM/UFRJ), como parte das iniciativas de preservação da memória das vítimas da repressão

Diplomas entre passado e presente

A própria confecção dos documentos buscou estabelecer uma ponte entre passado e presente. Embora atualmente os diplomas da UFRJ sejam digitais, os entregues aos familiares foram produzidos em papel, remetendo à forma como eram materializados na década de 1970.

O coordenador da Comissão da Memória e Verdade da UFRJ, professor emérito José Sérgio Leite Lopes, chamou atenção para a particularidade daquele título. Se um diploma universitário tradicionalmente registra a conclusão de uma trajetória de formação, naquele caso assumia outra dimensão: “afeto coletivo, memória social e reparação de injustiça”.

A relação dos homenageados foi construída a partir da documentação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e das minibiografias reunidas no volume III do relatório da Comissão Nacional da Verdade. A CMV/UFRJ confrontou os registros para confirmar os vínculos dos homenageados com a Universidade.

Os estudantes estavam distribuídos por diferentes áreas do conhecimento, entre elas Economia, Arquitetura, Física, Engenharia, Química, Belas Artes, Ciências Sociais, Filosofia, Farmácia, Educação, Biologia e Direito, revelando o alcance da repressão sobre a comunidade universitária.

Para os casos em que familiares não puderam ser localizados, os diplomas ficarão sob a guarda das respectivas unidades acadêmicas, possibilitando que parentes possam recebê-los futuramente.

Uma universidade atravessada pela ditadura

A perseguição política na UFRJ não se restringiu aos 26 homenageados. A ditadura atingiu a vida universitária por diferentes mecanismos, das investigações e expurgos dos primeiros anos do regime às cassações de docentes após o AI-5. Houve ainda expulsões de estudantes com base no Decreto nº 477, vigilância por órgãos de informação, prisões e torturas. Segundo levantamento da Comissão da Memória e Verdade, 23 professores da UFRJ foram cassados por meio de aposentadoria compulsória no contexto do AI-5.

A diplomação atual se soma a outras ações de memória realizadas pela Universidade. Em 2009, estudantes mortos e desaparecidos foram homenageados durante a gestão do reitor Aloísio Teixeira. Em agosto de 2024, familiares receberam medalhas em cerimônia na Associação Brasileira de Imprensa (ABI); em dezembro daquele ano, um totem com os nomes das vítimas foi inaugurado no campus da Cidade Universitária. Em julho deste ano, Stuart Angel recebeu diploma póstumo em cerimônia que antecedeu a homenagem coletiva.

A atual coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) Mário Prata, Malu Selonk, relacionou a recuperação dessa memória à própria história do movimento estudantil da UFRJ. Para ela, a diplomação “é mais importante para o presente do que para o passado”, por indicar às novas gerações qual memória da Universidade deve ser preservada.

A ligação entre gerações esteve presente também na fala do jornalista Franklin Martins, presidente do DCE em 1968. “A marca registrada da nossa geração foi a insubmissão”, afirmou. Para Martins, recordar os estudantes e professores perseguidos permite que “sendo lembrados, semeiem dignidade para o futuro também”.

“Perdoem-nos pela demora”

A dimensão de futuro foi contemplada ainda pela vice-reitora Cássia Turci. “Diplomar nossos mortos e desaparecidos é um compromisso direto com os próximos 106 anos da UFRJ. Não há futuro democrático sem o enfrentamento corajoso do passado”, afirmou.

Ao encerrar a cerimônia, Medronho também vinculou memória e democracia. Para o reitor, a democracia não é um patrimônio definitivamente conquistado, mas algo que precisa ser construído, cuidado e defendido cotidianamente.

Mais de cinco décadas depois de muitas daquelas trajetórias terem sido interrompidas, os diplomas entregues aos familiares não desfazem a violência nem encerram as reivindicações por justiça. Registram, porém, uma escolha institucional sobre o lugar que aqueles estudantes e professores devem ocupar na história da Universidade.

Christine Ruta sintetizou esse sentido ao falar sobre a escolha de realizar a cerimônia durante as comemorações do aniversário da instituição: “Talvez esta seja uma das formas mais dignas que a UFRJ tem de celebrar seus 106 anos: recusar que a interrupção seja a última palavra”.

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