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notícia 22/07/2016

O papel da energia nuclear no suprimento de água potável no mundo

Planta Nuclear de Dessalinização do Complexo de Energia Nuclear de Karachi (KANUPP), no Paquistão. Foto: PAEC.
Planta Nuclear de Dessalinização do Complexo de Energia Nuclear de Karachi (KANUPP), no Paquistão.
Foto: PAEC.

A preocupação mundial com a segurança hídrica tornou-se tema da maior importância no Brasil, por conta da redução do nível de reservatórios que abastecem, em especial, cidades do porte do Rio de Janeiro e de São Paulo. A boa notícia vem em razão da parceria entre a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), a Marinha do Brasil e as Universidades para investimentos na obtenção de água potável por meio do processo de dessalinização. Em destaque no âmbito dessa parceria estratégica, o modelo de colaboração entre Governo, Indústria e Universidade, conhecido como Hélice Tríplice, arranjo extremamente ativo, que se apresenta, por exemplo, como uma das fortalezas do sistema econômico da Coréia do Sul.

Foi esse o modelo que proporcionou ao Brasil o domínio do processo de enriquecimento de urânio e, agora, leva-o ao desenvolvimento de um projeto nacional em dessalinização nuclear, método já utilizado no Canadá, Rússia, Paquistão e Argentina.

Neste contexto, o Secretário de Ciência Tecnologia e Inovação da Marinha, Almirante de Esquadra Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior, afirma:  “O projeto conceitual de um reator de pequeno porte, a partir do Laboratório de Geração Nucleoelétrica (LABGENE), combinado a diferentes sistemas de dessalinização, foi iniciado com a participação da Comissão Nacional de Energia Nuclear, da Marinha e das Universidades, com a colaboração, em rede, de pesquisadores especializados. Nas próximas décadas, a energia nuclear deverá desempenhar papel importante na produção de eletricidade e também na dessalinização da água, para suprir a necessidade crescente de suprimento de água potável no mundo”.

Já na avaliação da Comissão Nacional de Energia Nuclear, informa a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em seu Jornal da Ciência: “Este seria um caminho viável e econômico para resolver a escassez de água em nível nacional, já que o Brasil é o País com a sexta maior reserva de urânio, que serve como combustível para reatores nucleares e tem autonomia no seu enriquecimento e na produção dos elementos combustíveis”.

Utilizando fontes convencionais de energia há um total de 150 países, dos quais se destacam Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Barein e Omã, que obtêm 90% da água potável por meio de processos de dessalinização. Juntas, essas seis nações produzem 45% de toda a água dessalinizada do mundo. O Brasil possui apenas uma usina de dessalinização, no arquipélago de Fernando de Noronha, na costa de Pernambuco, mas existem outros projetos em desenvolvimento nos estados do Ceará, Pernambuco e Bahia.

Para avaliar as perspectivas dos investimentos brasileiros em projetos de alta tecnologia, em parceria com as Forças Armadas, o Portal do Clube de Engenharia consultou o Secretário de Ciência Tecnologia e Inovação da Marinha, Almirante de Esquadra Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior em entrevista que publicamos a seguir:

Como dimensionar a importância de parcerias entre as Forças Armadas, Institutos e Sociedade Civil na elaboração de projetos de alta tecnologia?

As mudanças qualitativas necessárias à conquista de autonomia científico-tecnológica passam pela opção política de um país sobre a gestão de sua capacidade tecnológica. Para o Brasil, tal afirmativa evidencia a necessidade do alinhamento do pensamento político dominante com as diretrizes do Modelo de Inovação Hélice Tríplice de relações Universidade-Indústria-Governo, proposto por Leydesdorff e Etzkowitz na década de 1990. Para Leydesdorff e Etzkowitz, o Modelo de Inovação Hélice Tríplice é apropriado para dinamizar o processo de inovação e o desenvolvimento socioeconômico sustentável, inclusive nos países em desenvolvimento, por meio de uma nova estrutura para a inovação, aproximando a pesquisa básica da pesquisa aplicada, viabilizando, assim, o crescimento econômico.

A Estratégia Nacional de Desenvolvimento é inseparável da Estratégia Nacional de Defesa?

Uma estimula a outra, uma vez que, segundo a nossa própria Estratégia Nacional de Defesa (END) “Forte é o projeto de desenvolvimento que se guie pelo princípio de independência nacional, alcançada pela capacitação tecnológica autônoma. Não é independente quem não tem o domínio das tecnologias sensíveis, tanto para a defesa quanto para o desenvolvimento”. Ao analisar o ambiente de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), a END vislumbra oportunidades a serem exploradas para a otimização dos esforços em CT&I para a Defesa, por intermédio da maior integração entre as Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICT), tanto militares quanto civis, e a Indústria Nacional de Defesa; da definição de pesquisas de uso dual; e do fomento à pesquisa e ao desenvolvimento de produtos de interesse da Defesa. Para seguir na direção dos objetivos de alcance do domínio do conhecimento, incluindo a capacitação dos recursos humanos e a atualização da infraestrutura tecnológica das ICT da Marinha do Brasil (MB), e de estabelecimento de um ambiente favorável à inovação e à competitividade industrial, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Marinha (SecCTM) optou pelo Modelo de Inovação Hélice Tríplice, viabilizado por meio do estabelecimento de parcerias com a Academia e com a Base Industrial de Defesa (BID).

Qual a avaliação que se faz hoje das parcerias estabelecidas?

A integração científica oriunda das parcerias estabelecidas entre a MB e a Universidade Brasileira, como, por exemplo, com a Universidade de São Paulo, a Universidade Federal Fluminense e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, por meio de Escritórios criados para esse fim, possibilitaram a obtenção de novas tecnologias, na execução de pesquisas que contribuíram para o equacionamento dos desafios de infraestrutura e de recursos humanos, inerentes ao setor de CT&I da MB e para o atendimento da END. Essas parcerias, por fim, consideraram as orientações da END, para a integração das ICT da MB com a Academia e com a BID, como proposto pelo Modelo de Inovação Hélice Tríplice.

Para o Brasil, o que significa o domínio de tecnologias usadas em outros poucos países por meio de pesquisas próprias?

O domínio de tecnologias, por meio de nossas próprias capacidades de pesquisa e de desenvolvimento, incluirá o Brasil no rol de países independentes das tecnologias comercializadas e controladas por organizações estrangeiras. Tal posição exigirá a busca da autonomia tecnológica como fator de independência e de soberania, por meio do domínio de tecnologias sensíveis, como tem sido o propósito do Programa Nuclear da Marinha, alicerce para o projeto e a construção da propulsão nuclear para uma nova classe de submarinos.

Trata-se de um novo olhar na área de Ciência, Tecnologia e Inovação?

Esse posicionamento, observando o contido na END, indica uma nova proposta de orientação estratégica para o emprego da Marinha, sugerindo uma grande influência das atividades de CT&I para a sua consecução. Isso é possível por meio da capacitação da indústria nacional de material de defesa como elemento importante para a conquista da autonomia em tecnologias indispensáveis à Defesa, culminando com o desenvolvimento de competências específicas, as quais permitirão a redução da dependência estrangeira, ampliando a possibilidade de nacionalização de produtos e de serviços de CT&I. O estabelecimento de parcerias da MB com Universidades Brasileiras e com empresas da BID, como anteriormente comentado, é um meio de vencer o enorme desafio representado pelo desenvolvimento tecnológico almejado pelo Brasil, fator preponderante para a sua independência tecnológica.

O uso de pequenas usinas modulares como solução para produção simultânea de eletricidade e água dessalinizada é apontado como uma tendência mundial. Como deve ser a aceitação e difusão no Brasil?

A segurança hídrica é uma preocupação para o Brasil, notadamente na recente redução do nível de reservatórios que abastecem as grandes cidades e na existência de regiões onde a seca inibe o desenvolvimento, trazendo à tona muitos estudos e projetos. Uma das alternativas mais viáveis está nos processos de dessalinização para obtenção de água potável, aplicados em cerca de 150 países, como a Arábia Saudita e o Kuwait, por exemplo, que assim obtêm cerca de 90% da sua água potável. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), tanto a dessalinização de águas marítimas quanto a geração de nucleoeletricidade têm caminhado juntas. Neste contexto, a combinação de esforços entre a MB, as Universidades e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) apresenta um histórico de projetos de sucesso, como o domínio do processo de enriquecimento de urânio.

Esse modelo de parceria também está sendo empregado no desenvolvimento de um projeto nacional em dessalinização nuclear para fazer face à necessidade de se garantir simultaneamente seguranças energética, hídrica e alimentar?

Para tanto, o projeto conceitual de um reator de pequeno porte, a partir do LABGENE, combinado a diferentes sistemas de dessalinização, foi iniciado com a participação da CNEN, da MB e das Universidades, com a colaboração, em rede, de pesquisadores especializados. Nas próximas décadas, certamente, a energia nuclear deverá desempenhar papel importante na produção de eletricidade e também na dessalinização da água, para suprir a necessidade crescente de suprimento de água potável no mundo. Para países em desenvolvimento, pequenas usinas modulares apresentam-se como solução interessante para a produção simultânea de eletricidade e água dessalinizada. Assim, é esperado que um reator de pequeno porte, com origem no projeto autóctone LABGENE da MB, poderá constituir-se numa solução técnica e economicamente viável no desenvolvimento de um sistema de dessalinização nuclear nacional, capaz de ajudar o País a atingir as almejadas seguranças hídrica, energética e alimentar em regiões críticas e tradicionalmente afetadas.

Construção do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), localizado no Centro Experimental ARAMAR, em Iperó-SP. Foto: Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP).
Construção do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), localizado no Centro Experimental ARAMAR, em Iperó-SP.
Foto: Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP).