Desafios de Belo Monte: planejamento em engenharia, logística e prazos

Da esquerda para a direita: Conselheiro Manuel Martins representando o chefe da DCO, Luiz Carneiro; Clarisse Farias; Pedro Celestino; Oscar Machado; e Marco Tulio Pinto. Foto: Fernando Alvim.

Obra de grande porte, com relevante impacto para a população e duração de mais de sete anos, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, construída na bacia do Rio Xingu, próximo ao município de Altamira, no sudoeste do estado do Pará, foi tema de debate, em 27 de agosto, no Clube de Engenharia. O painel promovido pela Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e a Divisão Técnica de Construção (DCO) contou com a presença de técnicos altamente qualificados, que enriqueceram suas apresentações com informações históricas sobre o processo de construção, reunindo olhares tão diversificados, a partir de suas experiências profissionais, quanto esclarecedores.

Participaram do encontro “Belo Monte – um desafio de escala, logística e prazo”, a Gerente de Excelência e Inovação da empresa Andrade Gutierrez, Clarisse Farias Cordeiro; o Diretor de Projeto do Consórcio Construtor Belo Monte, Marco Tulio Pinto; e o Superintendente de Construção da Norte Energia, Oscar Machado Bandeira. O evento ainda contou com o apoio da Divisão Técnica de Geotecnia (DTG), Academia Nacional de Engenharia (ANE), Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB – Núcleo Rio), Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS-Rio), Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE-Rio), e Associação Profissional dos Geólogos do Estado do Rio de Janeiro (APG-RJ).

Contexto desafiador

Os principais desafios da obra, iniciada em 2011, foram registrados por Marco Tulio Pinto, desde os primeiros passos, como estabelecer o acesso à área de trabalho, uma vez que as estradas eram vicinais, com acesso de apenas um veículo por vez, e com pontes em estados precários. Uma das primeiras ações, portanto, foi a melhoria das estradas e pontes para chegar nos sítios Canal, Pimental, Belo Monte e a área dos diques. Outro desafio local foi a construção dos diques: a região tem muita chuva no primeiro semestre, sendo o segundo marcado pela estiagem. Assim, os aterros só puderam ser concluídos no segundo semestre de 2012 a 2015. Somente após essa conclusão foi possível começar a encher os reservatórios. “Foi um grande desafio não só de planejamento em engenharia, mas de logística de pessoas, equipamentos e todo o suporte que tivemos que dar para materializar o empreendimento”, afirmou Marco Tulio.

O consórcio também precisou adequar a região ao grande contingente de trabalhadores que por lá passaria: em novembro de 2015 já eram mais de 37 mil. Na cidade mais próxima dos sítios, Altamira, foi construído um núcleo de Recursos Humanos para os funcionários, com serviços médicos, treinamento, alojamento, refeitório, entre outros serviços. Muitos dos trabalhadores não tinham nenhuma experiência em obras, e para isso foi montado o programa Capacitar Para Crescer, que ensinava as pessoas a operar equipamentos de terraplanagem, formando também pedreiros, carpinteiros, eletricistas, entre outros. Segundo Marco Tulio, dos mais de 100 mil trabalhadores que já passaram pelo programa cerca de 15 mil não tinham nenhum conhecimento prévio da área.

Minimização de impactos

Oscar Machado, com experiência na construção de hidrelétricas desde os anos 70, apresentou algumas especificidades da construção de uma grande hidrelétrica em cumprimento das exigências socioambientais do século XXI. Um dos destaques de Belo Monte é ter, em potencial, uma geração anual de energia de 40 milhões de Mwh, que corresponderia a dois estados do porte de Minas Gerais. Terá 70% da energia produzida destinada aos consumidores, atingindo 17 estados e 26 distribuidoras. A potência da usina é de 11.233 MW, sendo maior, por exemplo, do que Tucuruí, cuja construção utilizou mais do que o dobro de concreto. O reservatório de Belo Monte, de 478 km², corresponderia a um sexto de Tucuruí, com 2.875 km². A relação entre energia produzida e área de alagamento, de Belo Monte, também é uma das menores, no ranking das dez maiores usinas do Brasil.

Ainda no sentido do cumprimento das exigências ambientais, Bandeira apresentou o sistema de transposição de peixes, com 1,2 km de extensão, que conta com monitoramento por vídeo, biotelemetria, rádio e acústica, além do constante registro das espécies locais. Também foi feita uma ação para garantir a livre circulação dos locais que tradicionalmente utilizam o Rio Xingu. A conclusão da obra no sítio Pimental faz com que as águas do Rio Xingu passem pela área com muita força, atrapalhando a navegação de ribeirinhos e outros que frequentam a região. Com um barramento construído entre as águas agitadas e o lago formado também em virtude da construção, a empresa se responsabilizou pelo transporte seguro das pessoas e de suas embarcações, através de carretas e vans.

Com uma receita média anual de cerca de 5 bilhões de reais a partir de 2018, a Norte Energia investiu 3,7 bilhões no cumprimento de ações socioambientais conforme previsto para obras de grande impacto. A verba foi utilizada em implantação de saneamento na região, construção de 30 Unidades Básicas de Saúde (UBS), e ações de construção, reforma e ampliação em centenas de salas de aula nas escolas locais.

Compromisso com a inovação

A apresentação de Clarisse Farias trouxe informações sobre o caráter inovador da Andrade Gutierrez. Dentre as dez empresas na composição do consórcio construtor de Belo Monte, a Andrade Gutierrez foi a de maior participação, na ordem de 18%. Segundo ela, a empresa se esforça em inovar tanto nas tecnologias quanto na gestão de pessoas, incentivando constantemente seus funcionários a darem novas ideias para a melhoria da empresa. A companhia tem investido em construção 4.0 e desde o ano passado agrega startups para que as novas mentes colaborem no campo da inovação, tendo implementado projeto piloto, fruto dessa ação, no campo de implantação de linhas de transmissão com o uso de drones. Segundo Clarisse, a Andrade Gutierrez foi eleita a primeira empresa mais inovadora do Brasil na área de construção pesada.

A formação da mão de obra realizada no empreendimento foi um dos destaques do presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino. “Nos últimos 30 anos, houve um avanço extraordinário nas tecnologias, mas a mão de obra continua sendo de baixa qualificação. Vocês se preocuparam em transformar a mão de obra, a vida nas redondezas, nas questões mais essenciais. Eles serão melhores carpinteiros e armadores, terão condições de, no seu processo de construção popular, errar menos”. O primeiro vice-presidente, Sebastião Soares, destacou o pioneirismo. Para ele, o caso quebra dois tabus: o de construir hidrelétrica na Amazônia e o de construir hidrelétrica a fio d’água. “A engenharia é para isso: em uma situação específica, encontrar soluções técnicas viáveis”.

Clique aqui para ter acesso à apresentação em PDF de Marco Tulio

Clique aqui para ter acesso à apresentação em PDF de Oscar Machado

 

 

Receba nossos informes!

Cadastre seu e-mail para receber nossos informes eletrônicos.

O Clube de Engenharia não envia mensagens não solicitadas.
Skip to content