Inundações e falta d’água acontecem em bacias hidrográficas doentes

O professor Adacto Ottoni apresentou soluções sustentáveis para a gestão de recursos hídricos. Foto: Fernando Alvim.

Entre o verão e o outono, anualmente, as tragédias se repetem no Rio de Janeiro: fortes chuvas provocam inundações e deslizamentos, quase sempre com perdas materiais irreparáveis e vítimas fatais. Para tratar do tema, o Clube de Engenharia promoveu a palestra “Crise de água no estado do Rio de Janeiro”, com o engenheiro civil e sanitarista Adacto Ottoni, no dia 17 de abril.

Para Adacto Ottoni, que é coordenador adjunto do curso de especialização em Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), os problemas vividos pelo país, que contém 12% da água doce do mundo, só podem ser explicados por má gestão dos recursos naturais e financeiros. A crise hídrica que vivemos não representa escassez de água, mas uma degradação das bacias hidrográficas.

“Temos que interpretar a crise hídrica como a bacia hidrográfica doente. Todos os problemas de enchente, inundações e falta d’água vão acontecer numa bacia hidrográfica, e a bacia mal manejada, seja urbana ou rural, vai gerar problema. Tanto de risco de rompimentos de barragens na época de chuva como, no mesmo ano e no mesmo lugar, pode haver um colapso por falta d’água por conta dessa degradação”. Os eventos se relacionam porque, se uma barragem de resíduos rompe, é porque pouco se investe nos estudos hidráulicos da mesma, e se uma enchente ocorre, é porque não há solo permeável (como florestas) para que a água da chuva infiltre, nem bueiros limpos para receber as águas pluviais e estas se somam às dos rios transbordados por estarem assoreados. Ainda, sem água no subsolo, os rios não podem ser abastecidos pelo lençol freático na época de seca.

Para Ottoni, a solução não está necessariamente em grandes obras que captam a água já no “asfalto”, e sim evitar que cheguem com tanta força nas partes mais baixas da cidade. Ele apresentou soluções sustentáveis envolvendo a macrodrenagem, que é a vazão dos rios, e a microdrenagem, representada pelo escoamento superficial. Do jeito que é hoje, segundo ele, o primordial seria a prefeitura manter limpos os sistemas de macro e microdrenagem, evitando o entupimento de bueiros e limpando rios canalizados assoreados e repletos de lixo. É a falta desse sistema baseado em conservação que faz com que qualquer pequena chuva possa causar inundação, dependendo do ponto da cidade.

Pequenas obras: interceptação e amenização da chuva

A solução proposta por Ottoni pede interferências não somente nas estruturas urbanizadas como também nos corpos dos rios. Em nível de macrodrenagem, o professor acredita que o ideal seria construir pequenas e médias barragens de cheias nos rios e seus afluentes localizados em morros, amortecendo a propagação da água e fazendo pequenas acumulações de volume. Nas margens dos rios seriam colocadas soleiras de admitância, como pedras permeáveis que amortecem a vazão dos rios, de modo que havendo inundação a onda de enchente será mais fraca. Chegando à parte urbanizada, entra a microdrenagem: além da limpeza das estruturas para onde a água corre, o engenheiro sugeriu que sejam construídas bacias de detenção em áreas públicas: áreas de lazer, como parques, que seriam construídos em nível abaixo do nível da rua, de modo a receber o escoamento superficial das chuvas de grande volume. Uma bacia de detenção com a área de um hectare e dois metros abaixo da rua poderia acumular 20 mil m³ de água. E, concomitantemente a essas ações, promover o reflorestamento de Áreas de Preservação Permanente (APP), conforme determinado pelo Código Florestal, além de investir em habitação popular para pessoas que residam nestas áreas. Um solo florestado é capaz de reter 80% da água que nele chega, e que não vai escoar para as ruas.

A solução apresentada por Adacto Ottoni visou especificamente o caso do Rio de Janeiro, com sua respectiva geografia, mas ele deixou claro que qualquer solução para crise hídrica deve seguir o tripé: ser socialmente desejável, economicamente possível e ecologicamente viável. O planeta em geral só será sustentável se tiver educação ambiental para a população; reflorestamento; gestão sustentável de resíduos; uso de tecnologias limpas; e recuperação e preservação da biodiversidade.

O evento foi promovido pela Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e divisões técnicas especializadas (DTEs) de Engenharia do Ambiente (DEA) e Recursos Hídricos e Saneamento (DRHS), com apoio das DTEs de Recursos Naturais Renováveis (DRNR) e Engenharia Química (DTEQ).

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