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notícia 27/10/2016

Marinha lançará em 2018 primeiro modelo de nova geração de submarinos

Os quatro submarinos convencionais estão sendo construídos em paralelo na Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM), em Itaguaí, RJ. Foto: Site Poder Naval
Os quatro submarinos convencionais estão sendo construídos em paralelo na Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM), em Itaguaí, RJ.
Foto: Site Poder Naval

Com a certeza de que há uma significativa distância entre um programa de Estado e um programa de governo, a Marinha do Brasil (MB) está confiante no lançamento ao mar do submarino "Riachuelo", em julho de 2018. Será o primeiro dos quatro submarinos convencionais (S-BR) previstos dentro do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), que tem como objetivo final o projeto e a construção de um submarino com propulsão nuclear (SN-BR). A perspectiva é dar maior segurança à costa brasileira, chamada Amazônia Azul, que compreende uma área oceânica de 4,5 milhões de km², praticamente a metade do território nacional. Por ali o país escoa 95% do seu comércio exterior; são extraídos mais de 90% do nosso petróleo; e as riquezas naturais são comparáveis às da floresta amazônica. Proteger todo esse patrimônio e garantir a soberania nacional são objetivos que estão hoje entre os principais desafios da MB.

É nesta direção que nasce o PROSUB, por meio de uma parceria estratégica Brasil/França, quando, em dezembro de 2008, foram assinados acordos de nível político entre os dois países. A parceria abrange sete contratos firmados pela Marinha com a empresa francesa DCNS, a Construtora Norberto Odebrecht (CNO) e a Itaguaí Construções Navais (ICN), uma Sociedade de Propósito Específico, na qual o governo, representado pela MB, detém uma ação a título de golden share, com poder de veto. A escolha da Odebrecht para as obras de infraestrutura e construção civil foi da DCNS, detentora da tecnologia a ser utilizada. O Consórcio Baía de Sepetiba (CBS) é responsável pela gestão das interfaces.

A transferência de tecnologia (ToT) e a prestação de serviços técnicos especializados capacitam o Brasil em projetos e construção de submarinos convencionais e com propulsão nuclear, exceto na área nuclear. O circuito primário da propulsão será totalmente nacional, desenvolvido pela Marinha, contando com apoio da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, além da França, detém essa tecnologia apenas os EUA, Reino Unido, China e Rússia. A Índia recentemente anunciou o comissionamento do seu primeiro submarino com propulsão nuclear construído no país, programa que contou com significativo apoio russo no sistema de propulsão.

Cortes atrasam, mas não param as obras
Em 2015, o orçamento anual do programa, de R$ 1,750 bilhão, foi cortado praticamente à metade, para R$ 876 milhões efetivamente liberados. De um total de 2.700 empregados, o complexo da Ilha da Madeira, em Itaguaí (RJ), onde estão sendo construídos os Estaleiros de Construção e de Manutenção e a Base Naval, encolheu para 1.300 pessoas. A redução provocou alterações no ritmo do programa, mas não chegou a interrompê-lo. Uma visita à Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM) impressiona pela dimensão do projeto e a dinâmica do processo construtivo dos S-BR, a cargo da ICN. Mesmo com eventuais ajustes de prioridades, o programa vai continuar, afirma o Almirante de Esquadra Gilberto Max Roffé Hirschfeld, coordenador-geral do PROSUB. Para 2016 e 2017 está prometida a recomposição de parte do valor inicial.

O PROSUB soma, no total, 6,7 bilhões de euros, parte financiada por um consórcio formado pelos bancos BNP Paribas, Societé Generale, Calyon Credit Industriel et Commercial, Natixis e o Santander. Segundo o Contra-Almirante Guilherme Dionizio Alves, Gerente do Empreendimento Modular de Obtenção de Submarino com Propulsão Nuclear, o avanço na construção do submarino  convencional (S-BR) funciona como etapa de preparação e da capacitação técnica das equipes para, em fase posterior, permitir a construção do SN-BR, de muito maior complexidade.

Como efeito da restrição orçamentária do ano passado, a Marinha optou por priorizar a infraestrutura suficiente para lançar o primeiro S-BR. O desenvolvimento dos submarinos convencionais implica a utilização da infraestrutura industrial e da rede de fornecedores, capacita equipes e testa processos que uma vez consolidados serão utilizados no SN-BR.

Essa interdependência contratual permite a gestão dos recursos, explica o Almirante Guilherme. Por exemplo: do complexo industrial previsto, priorizou-se o Estaleiro de Construção, deixando para depois o Estaleiro de Manutenção e a Base Naval, destinados a serviços que não são necessários neste estágio do programa.

A implantação da infraestrutura no Complexo Naval de Itaguaí envolve a Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM), com 57.000 metros quadrados de área construída, pronta há três anos e meio, em cujas instalações estão sendo construídos os S-BR. A Nuclep, parceira antiga da Marinha na construção de submarinos, produz as seções do casco resistente, que são entregues na UFEM, localizada ao lado, para instalação de equipamentos, tubulações, cabos elétricos, etc. No Estaleiro de Construção está em fase final de instalação um elevador de navios com capacidade para 8 mil toneladas, que lançará ao mar os submarinos, inclusive o com propulsão nuclear.

Os submarinos brasileiros serão diferentes do padrão exportado pela DCNS, que tem 66 metros de comprimento. De acordo com o Almirante Guilherme, os requisitos impostos pela MB geraram alterações no S-BR, que terá comprimento total aproximado de 71 metros. Foi inserida uma seção intermediária desenvolvida de forma conjunta por franceses e brasileiros, que também compartilham a autoridade sobre o projeto desta seção para eventual uso futuro.

Um programa de nacionalização busca qualificar a indústria nacional na produção e manutenção de equipamentos e sistemas, incluindo transferência de tecnologia para permitir encomendas no parque nacional. Iniciado em 2011, engloba 104 subprojetos, dos quais 56 têm prioridade elevada, levando em consideração aspectos estratégicos como conteúdo tecnológico e barreiras a serem suplantadas, tempo médio de reparo dos equipamentos (uma medida para a disponibilidade dos sistemas), e a importância do projeto para o S-BR. Cerca de 200 empresas já foram visitadas em negociações visando participação como fornecedoras.

Reator nuclear
Enquanto avançam os processos construtivos do Estaleiro de Construção e dos S-BR, as equipes do SN-BR continuam desenvolvendo o projeto da propulsão nuclear. Os projetistas brasileiros partiram do zero para dominar as tecnologias envolvidas na parte nuclear do SN-BR, considerada estratégica para o país. O projeto preliminar do SN-BR, em fase de conclusão, já reúne um total de 12 mil requisitos.

O contrato que trata da transferência de tecnologia (ToT) no SN-BR cobre infraestrutura; aquisição de pacote de material e respectivo sistema logístico; gerenciamento do projeto e apoio ao projeto e à construção do SN-BR no Brasil, exceto a parte nuclear, que está sendo desenvolvida pela Marinha. A nacionalização de materiais, equipamentos e sistemas, deve envolver aquisições da ordem de 100 milhões de Euros.

Para a planta nuclear, serão acionados fornecedores para condensadores, geradores de vapor, bombas de resfriamento, pressurizadores, estruturas mecânicas de elemento combustível, elementos combustíveis de urânio e o próprio vaso do reator nuclear, sensores de fluxo neutrônico e sistemas de controle de potência. Ao longo de 2017, as atividades estarão concentradas nos testes de segurança para obter o sinal verde do órgão licenciador – a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

Atualmente, está em construção uma plataforma de validação em terra para o compartimento do reator, o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), instalação localizada no Centro Experimental de Aramar (CEA), em Iperó (SP), a ser concluída em 2020. Ali, o objetivo é montar um circuito primário para depois ser replicado dentro do ambiente do submarino. “Com o corte no orçamento, não paramos a construção, apenas diminuímos o ritmo”, conta o Almirante Guilherme.

O maior risco das restrições orçamentárias, segundo ele, está no processo de aquisição de equipamentos com requisitos nucleares. São produtos que não estão disponíveis no Brasil e, mesmo no exterior, não são encontrados com facilidade. “É uma questão de oportunidade poder comprar quando o fornecedor está disposto a vender. Pode ser que, mais adiante, não se encontre nas mesmas condições, o que só aumenta a complexidade do projeto.”

Atualmente, o Brasil tem cinco submarinos – Tupi, Tamoio (o primeiro construído no país),  Timbira, Tapajó e Tikuna – que começam a se aproximar do limite de vida útil, em geral de 30 anos.  No novo programa, os S-BR contemplarão capacidades operativas mais aprimoradas, em linhas gerais, terão mais autonomia, poderão ficar mais tempo submersos e serão mais "silenciosos".

Com uma quantidade pequena de combustível, os submarinos com propulsão nuclear podem ficar mais tempo submersos, ir mais longe e bem mais rápido do que os convencionais, cuja propulsão depende de baterias que descarregam. “Se os convencionais podem ficar semanas debaixo d'água, os de propulsão nuclear podem permanecer meses”, compara o Almirante Guilherme.

Assista ao vídeo aqui.