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notícia 26/01/2018

Mobilidade Urbana: eterno desafio

Fernando Mac Dowell e equipe apresentaram perspectivas da Secretaria Municipal de Transportes. Foto: Fernando Alvim
Fernando Mac Dowell e equipe apresentaram perspectivas da Secretaria Municipal de Transportes.
Foto: Fernando Alvim

O Rio de Janeiro, segunda cidade mais populosa do país, que concentra atividades fundamentais para toda a sua região metropolitana, conta com uma grande variedade de transportes públicos para a população. No entanto, fatores como a quantidade de ônibus disponíveis, qualidade dos transportes e preço das passagens desagradam grande parte dos cariocas. A Secretaria Municipal de Transporte e Logística do Rio de Janeiro (SMTR), na pessoa do então secretário e vice-prefeito, Fernando Mac Dowell, e de membros da sua equipe, teve a oportunidade de esclarecer dúvidas e apresentar novas perspectivas para o transporte na cidade em evento no Clube de Engenharia. A palestra “Mobilidade Urbana” foi realizada no 18 de janeiro, com promoção da Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e Divisão Técnica de Transportes e Logística (DTRL).

Fernando Mac Dowell foi apresentado pelo presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, como uma das maiores autoridades brasileiras em transporte urbano. “A cidade do Rio de Janeiro deve, ao Mac Dowell, como diretor de planejamento do metrô do Rio na década de 70, a elaboração de uma extensa pesquisa que de alguma forma embasa até hoje intervenções na área de mobilidade urbana”, ressaltou Celestino. O presidente ainda comentou a alegria de ter entre os presentes o comandante Celso Franco, responsável pela introdução da engenharia de trânsito no Rio de Janeiro e no Brasil na década de 70, quando foi diretor do Departamento de Trânsito do Estado do Rio de Janeiro (Detran).

Primeiro ano de gestão
Na visão de Mac Dowell, a mobilidade urbana do Rio de Janeiro passa por problemas deixados por gestões passadas, como o BRT Transbrasil e o metrô, cuja expansão da linha 2, ligando Estácio, Carioca e Praça XV, nunca foi concretizada. Um caso de sucesso recente, segundo MacDowell, é a integração entre metrô e van pelo preço único de R$ 5,00 na rota São Conrado - Jardim de Alah, implementada em outubro de 2017. Segundo o secretário, o modelo de integração tem sido satisfatório para a população e vai se estender para todas as Áreas de Planejamento (APs) da cidade. Ele também comentou a construção de um viaduto que, futuramente, vai ligar a Ponte Rio-Niterói à Linha Vermelha. Um segundo viaduto ligará o Cais do Porto à Avenida Brasil.

Ônibus: obstáculo de negociação
Mac Dowell lamentou o entrave do poder municipal em negociar com os empresários do sistema de ônibus para resolver determinadas questões, principalmente a tarifa. Segundo ele, mesmo com isenção de impostos na ordem de 70 milhões de reais e menos cobradores nos veículos, as empresas não reduzem o valor da tarifa voluntariamente. "Sobre os ônibus, não se pode fazer nada, inicialmente", afirmou.

Maria de Fátima Ribeiro, do Sindicato Municipal dos Trabalhadores Empregados em Empresas de Transporte Urbano de Passageiros do Rio de Janeiro (Sintraturb-Rio), comentou a grave situação da categoria após a racionalização das linhas de ônibus feita na gestão anterior da prefeitura, além da falência de empresas e os milhares de rodoviários desempregados, e questionou a possibilidade de se fazer a integração entre metrô e ônibus com desconto, assim como foi feito com vans, uma vez que os ônibus transportam mais pessoas. Segundo Mac Dowell, a dificuldade é que as empresas de ônibus aceitem fazer a integração com desconto.

Alberto Nogueira, subsecretário de transportes, explicou que, em virtude dos contratos da prefeitura com o setor, qualquer negociação que vá reduzir o lucro dos empresários precisa ter a garantia do subsídio do poder público municipal, o que é um desafio. Ainda segundo ele, hoje já existem cerca de 15 linhas com integração com o metrô e a prefeitura subsidia para que se tenha 30% de desconto em relação à soma das duas passagens. "É o máximo que nós conseguimos", afirmou.

O processo é complexo: o subsecretário informou que existem hoje na Justiça pelo menos 20 ações envolvendo o assunto da tarifa dos ônibus no Rio de Janeiro, e a prefeitura tem dificuldade em contratar empresa para realizar auditoria sobre o valor vigente. A recente redução da tarifa, em 40 centavos, foi causada justamente pelo processo ajuizado.

Durante a palestra, também foi levantado questionamento a respeito da racionalização das linhas de ônibus, ocorrida na região metropolitana ainda em 2015, que mudou trajetos e tirou diversas linhas de operação. A interrupção da progressão desse processo foi uma das promessas de campanha do prefeito Marcelo Crivella em 2016. Segundo Eduardo Novaes, da Federação de Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro (Famerj), a racionalização destruiu o sistema de linhas dentro do município e causou grande transtorno na vida dos trabalhadores do estado. Marcos Tognozzi e Rocha, coordenador técnico de gestão e operação da SMTR, afirmou que, além da racionalização, a cidade passou por processos de perda de vias, como o trecho da Avenida Rio Branco que se tornou passeio público e a inserção do VLT, mas a revisão da racionalização vem sendo feita lentamente e seria ruim para a população se todo o sistema mudasse repentinamente.

Muitos transportes, pouca integração
A integração entre os modais, fundamental numa metrópole na qual numerosos passageiros utilizam mais de um transporte público em curto período de tempo, também foi tema levantado. Hoje, as modalidades de Bilhete Único não realizam, por exemplo, desconto de tarifa no VLT. Segundo Alberto Nogueira, o Rio de Janeiro tem ferramentas necessárias para ter integração multimodal, porém as políticas tarifárias são complexas porque os transportes competem a concessões distintas. "Não se consegue hoje fazer uma política tarifária que abranja todos os modais", concluiu.

Para Uiara Martins, chefe da DTRL e integrante do Fórum de Mobilidade Urbana, muitas das questões levantadas - como a racionalização dos ônibus, integração entre modais, segurança nas estações de VLT - competem a políticas públicas, tornando necessária a criação e funcionamento do Conselho Municipal de Transportes. "Nós não estamos aqui só para criticar, mas para ajudar", acrescentou. De acordo com as demandas da DTRL e de demais presentes, a Secretaria comprometeu-se a marcar audiência pública para tratar da questão dos transportes com a população, além de uma reunião relativa ao Conselho Municipal de Transportes. No dia 24 de janeiro, Fernando Mac Dowell deixou o cargo de secretário de transportes, assumido por Rubens Teixeira, e presidirá o recém-criado Conselho Consultivo Autoridade da Mobilidade e dos Transportes do Município do Rio de Janeiro (CAMTRJ).