“Desenvolver o país também é acabar com o racismo”

No dia em que se comemora a abolição da escravatura, Clube e Prefeitura do Rio inauguram busto dos irmãos Rebouças

Foi na manhã ensolarada do dia em que o Brasil comemora 126 anos da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888, que a parceria de sucesso entre o Clube de Engenharia e a Prefeitura do Rio de Janeiro concretizou merecida homenagem, com a inauguração do busto dos irmãos Rebouças. O dia emblemático na luta pelos direitos dos negros no país, agora também será marcado pela a inauguração do busto dos engenheiros negros que deixaram seu legado de diversas formas. André e Antonio Rebouças, além de abolicionistas, foram responsáveis pelo desenvolvimento científico e tecnológico da cidade do Rio de Janeiro, realizando pesquisas e obras de infraestrutura essenciais, inclusive para o abastecimento de água da cidade. O busto ficará instalado logo na descida do túnel que também leva o nome dos engenheiros, na região da Lagoa Rodrigo de Freitas, próximo à Fonte da Saudade.

A solenidade contou com a presença de personalidades protagonistas das questões raciais no Brasil e representantes da prefeitura. O presidente do Clube de Engenharia, Francis Bogossian, destacou que este é mais um importante passo para trazer à tona os debates sobre igualdade racial no país. “É preciso construir ações contra o racismo, que é abominável, por isso fiz esse apelo ao prefeito, para homenagearmos os irmãos Rebouças, por tudo que eles fizeram pela engenharia nacional e na luta contra a escravidão. Eles representam bem essa união entre as raças, são netos de avô português e avó negra”, afirmou Francis. Para o presidente do Clube, dar ao túnel o nome dos irmãos foi importante, mas parecia que ainda faltava alguma coisa. “A imagem deles representa mais uma etapa desse reconhecimento do legado desses importantes engenheiros”, destacou, complementando que o Clube está muito comprometido com a questão racial. “Pretendemos levar essa bandeira adiante como sendo uma das nossas prioridades, pois precisamos nos unir em nome do desenvolvimento do país que, sem dúvida, também depende da igualdade racial. Desenvolver o país também é acabar com o racismo”, arrematou.

Outro grande ator desta homenagem foi o escultor Edgar Duvivier, artista que assina a obra. Responsável pela construção de bustos de importantes personalidades, como Lima Barreto e Leonel Brizola, Edgar é filho de escultores, cresceu em um ateliê e tem como lema “faço, logo existo”. Para ele, estes monumentos representam um reconhecimento. “Viver é fazer, e a gratidão aos irmãos Rebouças é uma forma de dizer que seus feitos precisam ser valorizados. Por mais que a escravidão tenha acabado, sabemos que o racismo ainda existe, por isso é preciso homenageá-los também como negros e não apenas como engenheiros com grandes feitos”, disse o artista.

Edgar também explicou que o processo de produção foi difícil, porque existiam poucas fotografias da época. “Tentei caracterizá-los da melhor forma possível. Levei cerca de dois meses para fazer, agora falta apenas a conclusão dos pedestais, mas o tempo de construção acaba sendo irrisório, porque os bustos são eternos. E é importante porque isso pode gerar o interesse das pessoas para que pesquisem quem são eles, e possam também reconhecer sua importância”, concluiu.

Para o secretário municipal de Conservação – pasta responsável pela construção –, Marcus Belchior, inaugurar os bustos no dia 13 de maio foi um ato emocionante. “Estar hoje aqui neste trajeto dos engenheiros que vem desde o viaduto Paulo de Frontin até o túnel Rebouças, com a presença dos presidentes do Clube e do CREA é uma honra. E falar dos irmãos Rebouças no dia da abolição da escravatura é essencial, porque foram negros que tiveram grande representatividade na luta contra a escravidão. Estamos homenageando aqui não apenas grandes nomes da engenharia, mas dois cidadãos que fizeram muito pelo Brasil”, afirmou.

O comprometimento do Clube de Engenharia foi mencionado em diversos momentos da solenidade. Belchior salientou a atuação do Clube não só para este feito, mas em muitos outros momentos da história da cidade. “Recebi essa nobre missão de homenagear duas pessoas que tanto representaram para a sua época das mãos de Francis Bogossian, demonstrando mais uma vez que o Clube de Engenharia tem papel protagonista em mais este momento transformador. Pretendemos nunca perder a parceria do Clube e suas contribuições valiosas”, garantiu.

O presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (CREA-RJ), Agostinho Guerreiro, presente na cerimônia confessou sua emoção diante das esculturas, Agostinho enfatizou a necessidade de se construir diariamente a democracia no Brasil. “Ficamos profundamente emocionados e reconhecidos por essa ação. É um resgate importantíssimo, já que os irmãos Rebouças enfrentaram muito preconceito racial e conseguiram superar tudo isso, deixando seus nomes gravados na história da engenharia brasileira. Os bustos contemplam esse reconhecimento e entram para a história do Rio e do Brasil, que precisa avançar não só na igualdade racial como também na de gênero, através de políticas públicas e debates diários”, frisou. O presidente do CREA também lembrou os atos de racismo que têm acontecido no esporte. “É inaceitável que ainda exista esse tipo de atitude, mas elas provam a necessidade de reflexão e de mais propostas que promovam a igualdade em todos os níveis”, encerrou.

Quintino Manoel do Carmo, conselheiro vitalício do Clube e outro importante expoente da luta dos negros na área da engenharia, também esteve presente e deu destaque aos feitos profissionais de André e Antonio Rebouças. “Enxergo essa homenagem como reconhecimento justo e, de certa forma, tardio ao trabalho desses engenheiros negros que contribuíram com a construção da Universidade do Brasil, foram pioneiros na construção da antiga Politécnica do Rio de Janeiro, realizaram obras inéditas e se destacaram no Brasil em diversos campos. Eles foram importantes para a engenharia nacional e para o desenvolvimento tecnológico, reconhecidos em vários países do mundo como verdadeiros intelectuais a frente de seu tempo”, conta. Também representando o Clube de Engenharia, a diretora de atividades administrativas e uma das organizadoras das comemorações do centenário de Abdias Nascimento na entidade, Ana Lúcia Moraes, acompanhou a solenidade de perto.

A solenidade também foi marcada pela presença de ativistas da questão racial, como a viúva de Abdias e diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros, Elisa Larkin Nascimento, e o presidente e fundador do Instituto de Cultura e Consciência Negra Nelson Mandela, José Carlos Brasileiro. Os ativistas parabenizaram a iniciativa do Clube e destacaram a importância da valorização dos negros como grandes fundadores da sociedade brasileira. “A importância desses bustos é sinalizar a presença de negros em diversas instâncias da sociedade. Temos ainda hoje uma ideia da população negra como a eterna escravizada, quando na verdade temos intelectuais, cientistas e profissionais de diversas áreas que são negros e contribuíram decisivamente para a fundação do país”, enfatizou Elisa.

 

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