A saúde não pode ser tratada como mercadoria

A saúde não pode ser tratada como mercadoria

A saúde não pode ser tratada como mercadoria
Dutra 75 Anos

Reflexões de Eloan Pinheiro sobre HIV, patentes, doenças negligenciadas, indústria farmacêutica e o papel do Estado na garantia do direito à saúde

Este material foi obtido a partir de uma entrevista concedida pela autora, durante a 26ª Conferência Internacional sobre AIDS, sistematizado por Maria Alice Ibanez Duarte com auxílio da IA Copilot. Texto final validado pela autora.

Disponível em https://agenciaaids.com.br/videos/a-humanidade-precisa-entender-que-nos-dependemos-uns-dos-outros-analisa-eloan-pinheiro

Autoria

Eloan Pinheiro, Química Industrial, membro da DTEQ, ex-diretora de Farmanguinhos, trabalhou na Organização Mundial da Saúde em Genebra e construiu uma trajetória marcada pela defesa da saúde pública e pela luta pelo acesso a medicamentos. Neste artigo, faz uma reflexão sobre os desafios impostos pela concentração de conhecimento, tecnologia e riqueza no setor farmacêutico, especialmente no enfrentamento das doenças negligenciadas do HIV e da AIDS.

Direito à saúde em disputa

O acesso a medicamentos e o enfrentamento das infecções por HIV e seu estágio mais avançado com a AIDS seguem no centro de um debate que envolve ciência, tecnologia, interesses econômicos e responsabilidade pública. A concentração de conhecimento e riqueza no setor farmacêutico impõe desafios à garantia do direito à saúde, especialmente em países que dependem de tecnologias controladas por grandes empresas, como é o caso do Brasil.

Capital, tecnologia e saúde pública

Mesmo após décadas de avanços científicos, o HIV continua associado a sofrimento, desigualdade e dependência de tratamentos contínuos. Nesse cenário, a saúde aparece atravessada por interesses econômicos que influenciam prioridades de pesquisa, preços de medicamentos e acesso da população às terapias disponíveis.

Lucro, pesquisa e acesso à cura

No setor farmacêutico, a lógica de mercado frequentemente coloca o lucro no centro das decisões. Tratamentos de uso prolongado mantêm pacientes dependentes de medicamentos por longos períodos, enquanto a busca por curas definitivas avança de forma mais lenta. Embora o HIV seja um vírus tecnologicamente complexo, cresce a cobrança por pesquisas mais profundas e comprometidas com soluções que reduzam a dependência contínua de medicamentos.

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Bio-Manguinhos da Fiocruz. Crédito: Creative Commons

O preço elevado de medicamentos de longa duração, como o Lenacapavir, ilustra a tensão entre inovação, acesso e interesse econômico. Quando terapias essenciais chegam ao mercado com valores muito altos, a vida e a saúde passam a ser tratadas como bens subordinados à capacidade de pagamento, e não como direitos fundamentais.

Patentes, monopólios e acesso a medicamentos

O sistema internacional de patentes também ocupa papel central nessa discussão. A vinculação das patentes de medicamentos à lógica comercial limita a autonomia dos países para desenvolver tecnologias próprias, produzir genéricos e ampliar o acesso a tratamentos. Antes de 1995, havia maior flexibilidade para que Estados utilizassem sua capacidade científica sem enfrentar as mesmas pressões econômicas externas.

Na prática, patentes podem restringir o acesso ao conhecimento, impedir a produção de alternativas mais acessíveis e aprofundar a dependência de monopólios privados. Instrumentos previstos na legislação, como a licença compulsória, são apontados como caminhos para reduzir barreiras e fortalecer a capacidade tecnológica nacional.

O papel do Estado e da ciência nacional

Com base em sua infraestrutura científica e no conhecimento acumulado, o Brasil tem condições de investir em um programa público de desenvolvimento de medicamentos, vacinas e pesquisas estratégicas. Diferentemente da lógica privada, esse tipo de iniciativa teria como objetivo principal o retorno social, com foco na proteção da vida e na ampliação do acesso à saúde.

O fortalecimento do Estado e da ciência nacional aparece, assim, como condição para reduzir a dependência do capital privado e orientar a inovação por prioridades coletivas. Nesse modelo, o poder público deve representar a população e agir para garantir direitos, em vez de apenas sustentar monopólios de exploração econômica.

Saúde como bem-estar e dignidade

A saúde é entendida como bem-estar amplo: morar em uma casa adequada, ter acesso a água potável, transporte, saneamento, meio ambiente saudável e condições dignas de vida. Muitas pessoas adoecem por exaustão, longos deslocamentos, poluição e falta de estrutura básica.

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Falta de saneamento básico

No caso da AIDS, o sofrimento permanece como marca de uma pandemia que expôs desigualdades e limites das respostas públicas e privadas. A superação desse cenário depende de solidariedade, cooperação científica e compreensão de que a saúde humana está ligada também às condições ambientais e sociais.

Doenças negligenciadas e desigualdades sociais

Essa reflexão se estende às doenças negligenciadas, que atingem populações pobres, periféricas, ribeirinhas e rurais, muitas vezes sem acesso a tratamentos novos ou atenção adequada do Estado e da ciência. Enfrentar essas doenças exige compromisso público, investimento científico e políticas voltadas à redução das desigualdades.

Congressos internacionais e influência da indústria

Os congressos internacionais sobre AIDS ainda podem representar espaços de esperança e circulação de conhecimento, mas passaram a ser vistos também como ambientes cada vez mais elitizados e caros. A forte presença da indústria farmacêutica nesses eventos reforça críticas sobre a influência empresarial na definição de agendas, enquanto resoluções e debates nem sempre se traduzem em mudanças concretas para a população.

Conclusão

O debate aponta para a necessidade de transformações estruturais. Sem um Estado comprometido com o interesse público, a saúde tende a permanecer subordinada a preços elevados, monopólios prolongados e prioridades definidas pelo mercado. Tratar a saúde como direito, bem coletivo e condição essencial para uma vida digna é um passo fundamental para enfrentar desigualdades e ampliar o acesso a medicamentos e tecnologias.

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