Introdução
Por Divisão Técnica de Transporte e Logística (DTRL)
O Brasil não se tornou um país continental apenas por sua dimensão territorial. A integração econômica, social e política do território nacional exigiu, ao longo de sua história, a construção de grandes sistemas de infraestrutura capazes de articular regiões, conectar populações e sustentar o desenvolvimento produtivo. Nesse processo, as ferrovias desempenharam papel decisivo.
Ao longo dos séculoa XIX e XX, o país estruturou uma ampla malha ferroviária que integrou cidades, viabilizou cadeias produtivas, impulsionou a industrialização e permitiu o transporte de passageiros e cargas em escala nacional. Mais do que infraestrutura logística, as ferrovias constituíram instrumento estratégico de integração territorial, desenvolvimento econômico e soberania nacional.
Nas últimas décadas, entretanto, o Brasil assistiu à progressiva desmontagem desse sistema.
A combinação entre a priorização do modelo rodoviarista, a descontinuidade do planejamento estatal de longo prazo e o processo de concessões implantado a partir dos anos 1990 provocou profunda transformação da estrutura ferroviária brasileira. Passadas mais de duas décadas, os resultados desse modelo exigem uma avaliação técnica, estratégica e institucional.
Os dados da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), sistematizados a partir da Declaração de Rede da FCA/2020 e consolidados pela ABIFER, revelam a dimensão desse processo. Do total de 7.885,1 km de ferrovias concedidas, apenas 1.819,7 km permanecem em operação ativa, correspondendo a cerca de 23% da malha. Por outro lado, 3.360,1 km encontram-se ociosos e 2.705,3 km abandonados, significando que aproximadamente 77% da infraestrutura concedida deixou de cumprir função operacional regular.
A situação é particularmente grave em diversos estados brasileiros. No Rio de Janeiro, cerca de 95% da malha concedida encontra-se abandonada ou sem operação regular. Em Minas Gerais, mais de 65% da rede ferroviária concedida está fora de operação. Na Bahia, praticamente toda a malha concedida tornou-se inativa ou ociosa.
Do ponto de vista técnico, esses números revelam a perda da lógica sistêmica da ferrovia como rede estruturante nacional.
A operação ferroviária passou a concentrar-se em poucos corredores de exportação voltados principalmente ao transporte de minério de ferro e commodities agrícolas, reduzindo drasticamente:
• a capilaridade da rede;
• o atendimento regional;
• o transporte de cargas gerais;
• e praticamente eliminando o transporte ferroviário de passageiros.
A ferrovia deixou de operar como elemento de integração nacional multifuncional e passou a funcionar de forma fragmentada, subordinada predominantemente à lógica financeira de curto prazo.
A ferrovia e o direito à mobilidade
O impacto desse processo ultrapassa a logística de cargas e atinge diretamente a vida cotidiana da população brasileira.
O abandono do transporte ferroviário de passageiros agravou os problemas de mobilidade urbana e regional, impondo deslocamentos mais longos, caros, inseguros e poluentes. Em diversas regiões metropolitanas, milhões de brasileiros enfrentam diariamente sistemas saturados, lentos e precários.
O transporte sobre trilhos possui características estruturais fundamentais:
• elevada capacidade;
• menor consumo energético;
• maior regularidade operacional;
• redução de emissões;
• menor índice de acidentes;
• maior eficiência territorial.
Sua ausência amplia desigualdades sociais e limita o acesso ao trabalho, à educação, à saúde e ao lazer.
Nenhum país de dimensões continentais sustenta níveis elevados de desenvolvimento econômico e integração territorial sem forte participação ferroviária no transporte regional e metropolitano.
O desaparecimento dos trens regionais
O Brasil já contou com extensa rede de trens regionais e de longa distância. Esses serviços integravam cidades médias, dinamizavam economias locais e ofereciam alternativa segura e acessível para milhões de pessoas.
Hoje, praticamente desapareceram.
Enquanto China, Índia, Rússia, Alemanha e França expandem continuamente suas redes ferroviárias de passageiros, o Brasil reduziu drasticamente sua presença ferroviária nacional.
A retomada dos trens regionais representa importante oportunidade para reconstrução da integração territorial brasileira.
As novas tecnologias ferroviárias permitem velocidades médias superiores a 100 km/h e implantação de linhas capazes de operar até 200 ou 250 km/h, sem necessidade dos elevadíssimos custos associados aos chamados “trens-bala”. Isso permitiria:
• integração entre capitais e regiões metropolitanas;
• redução da pressão sobre rodovias;
• estímulo ao turismo e à economia regional;
• fortalecimento de cidades médias;
• redução do consumo energético;
• ampliação da mobilidade nacional.
O transporte ferroviário de passageiros deve voltar a ser tratado como política pública estratégica de integração nacional.
Multifuncionalidade ferroviária e desenvolvimento nacional
A experiência internacional demonstra que sistemas ferroviários modernos operam de forma multifuncional.
As ferrovias não transportam apenas grandes volumes de minério ou grãos. Elas articulam:
• cargas industriais;
• encomendas;
• pequenas e médias cargas;
• passageiros;
• integração metropolitana;
• logística regional;
• cadeias produtivas complexas.
O modelo brasileiro atual reduziu drasticamente essa multifuncionalidade.
Ao priorizar exclusivamente corredores altamente rentáveis de exportação, grande parte do território nacional perdeu acesso à infraestrutura ferroviária. Pequenos e médios produtores passaram a depender quase exclusivamente do transporte rodoviário, aumentando custos logísticos e reduzindo competitividade econômica.
Essa concentração agravou ainda mais a dependência do modal rodoviário. Atualmente, cerca de 65% da matriz de transporte de cargas brasileira permanece concentrada nas rodovias, enquanto o modal ferroviário responde por aproximadamente 20%.
As consequências são conhecidas:
• aumento dos custos logísticos;
• maior consumo de combustíveis fósseis;
• elevação das emissões de carbono;
• desgaste acelerado das rodovias;
• acidentes;
• vulnerabilidade energética e logística.
Ferrovias, integração continental e soberania nacional
A questão ferroviária não pode ser analisada apenas sob perspectiva econômica. Trata-se de tema diretamente relacionado à soberania nacional.
Países continentais utilizam suas redes ferroviárias como instrumentos estratégicos de integração territorial, ocupação econômica, defesa nacional e fortalecimento produtivo. Nenhuma grande potência renunciou ao planejamento ferroviário como política de Estado.
No caso brasileiro, a integração ferroviária possui ainda dimensão sul-americana estratégica. Corredores bioceânicos, ligações com Bolívia, Paraguai e demais países vizinhos podem reduzir custos logísticos, ampliar o comércio regional e fortalecer a presença geopolítica brasileira no continente.
A desativação de trechos estratégicos, especialmente em regiões de fronteira, representa perda de capacidade logística, econômica e territorial. Reconstruir as ferrovias brasileiras significa também reconstruir capacidade nacional de integração continental e segurança estratégica.
A reconstrução ferroviária e a engenharia brasileira
A retomada ferroviária constitui igualmente um grande desafio para a engenharia nacional. A degradação da infraestrutura ferroviária elevou significativamente os custos futuros de recuperação. Estudos técnicos indicam que a reconstrução ferroviária pode alcançar valores da ordem de R$ 8 milhões a R$ 10 milhões por quilômetro, dependendo das características dos trechos.
Entretanto, esse desafio representa também enorme oportunidade para:
• geração de empregos qualificados;
• fortalecimento da indústria ferroviária;
• desenvolvimento tecnológico;
• produção nacional de trilhos e equipamentos;
• modernização de sistemas de sinalização;
• eletrificação ferroviária;
• formação de engenheiros e técnicos especializados.
O Brasil possui tradição ferroviária, capacidade técnica instalada e instituições de engenharia capazes de liderar esse processo.
A retomada do planejamento ferroviário exige:
• fortalecimento da engenharia pública;
• protagonismo da INFRA S.A., DNIT e ANTT;
• integração com universidades e centros de pesquisa;
• financiamento estratégico via BNDES;
• planejamento nacional de longo prazo;
• articulação entre Estado, indústria e engenharia.
Infraestrutura ferroviária não pode ser tratada apenas como ativo financeiro. Trata-se de patrimônio estratégico da Nação.
O papel do Clube de Engenharia do Brasil
O Clube de Engenharia do Brasil possui responsabilidade histórica nesse debate. Ao longo de sua trajetória, participou dos grandes projetos estruturantes do país e sempre esteve vinculado à defesa do desenvolvimento nacional, da engenharia brasileira e da soberania.
O debate ferroviário precisa retornar ao centro do planejamento nacional. A reconstrução das ferrovias brasileiras não significa retorno ao passado, mas preparação do país para o futuro. Um país continental, industrializado e socialmente integrado exige uma rede ferroviária moderna, multifuncional, sustentável e estrategicamente planejada.
Mais do que recuperar trilhos, trata-se de reconstruir capacidade nacional de planejar, integrar e desenvolver o território brasileiro.
O futuro do Brasil passa novamente pelos trilhos.




