Brasil sofre ataques externos à sua soberania enquanto mantém dependência tecnológica e de exportações de commodities
A política externa brasileira vem enfrentando turbulências e desafios, principalmente depois da posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Novamente, o país enfrenta obstáculos para seu comércio com a potência da América do Norte, que impõe tarifas pesadas sobre produtos brasileiros. Até o meio de pagamento Pix vem sendo usado como motivo para retaliações. As crises diplomáticas levantam um debate entre especialistas de como o país deve reagir a essa ofensiva contra sua autonomia, democracia e seus interesses econômicos. Num cenário internacional multipolar em que o Brasil tentar assumir um papel de preponderância, esses conflitos tendem a se tornar frequentes, o que torna mais urgente a tarefa de superar a dependência tecnológica e o papel de exportador de commodities, bem como reforçar a segurança e a defesa.
Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV-NPII), explica que a busca da autonomia em termos de política externa por parte do Brasil não é um pilar novo, mas que já vem sendo construído há décadas pelo Itamaraty. Segundo ele, o país está numa trajetória correta com relação ao não alinhamento automático com relação tanto aos Estados Unidos quanto a outras potências, mas haveria um descompasso nesse percurso quando se observa a política interna. Isso porque se surgem vulnerabilidades por conta de uma pauta de exportações concentrada em poucos produtos primários, o problema não é fruto das ações de outros países, mas sim da falta de incentivos à indústria e à diversificação das mercadorias vendidas ao exterior, um fator eminentemente doméstico.
A questão impacta não só a relação com os Estados Unidos, que usam dos tarifaços para pressionar o Brasil, mas também pode aos poucos gerar uma concorrência desleal com a indústria europeia, tendo em vista o acordo comercial assinado entre os blocos UE e Mercosul. Segundo ele, ainda há tempo de reverter a dependência tecnológica e até de tornar setores industriais mais competitivos, mas isso só será realizado com um plano de longo prazo, que não termine no período de um mandato governamental.
“Se qualquer governo anuncia um plano industrial, boa parte da mídia vai atacar, dizendo que é intervencionismo. Mas se o governo anuncia um Plano Safra, todo mundo aplaude, dizendo que o Brasil está dando gás a suas exportações. É um erro de mentalidade que temos no Brasil, o que faz com que o acordo com a União Europeia possa até reforçar o papel de exportador de commodities”, ressaltou Paz.
O Professor Titular de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) Carlos R. Milani afirmou que as políticas externa e interna precisam ser alinhadas e que, apesar da ousadia e até do vanguardismo de alguns posicionamentos do Brasil no campo diplomático, internamente o país adota uma postura acanhada na sua competitividade. O acadêmico também reforça a necessidade de uma política de industrialização mais robusta ao lado de novas frentes de acordos comerciais. Para ele, se o país é capaz até de propor medidas muito avançadas em defesa da democracia e de uma agenda de integridade da informação em termos de ciência do clima, contra a desinformação, fica muito atrás quando se fala em incentivo à própria ciência e tecnologia e ao seu desenvolvimento industrial. A sua vulnerabilidade em termos de Defesa do território também pesa contra quando tenta atingir maior protagonismo internacional.
Para o professor, o Brasil está no caminho certo quando procura diversificar seus parceiros comerciais e também quando se alia a um bloco importante como o BRICS, mas erra ao permitir que o agronegócio assuma domínio político e econômico acima de todos os outros setores. É o que explica o fato de a China estar avançando tão rapidamente no campo tecnológico e industrial, importando minério e alimentos do Brasil, enquanto somos dependentes desses produtos de alto valor agregado.
“Não é responsabilidade da China essa demanda, mas em vez de o Brasil se organizar em torno de uma política industrial mais agressiva e aprofundada, com investimentos mais fortes na área de ciência e tecnologia e inovação, sua economia política interna tem sido muito dominada por dessa exportação dependente de commodities”, afirma Milani.
Com essas vulnerabilidades, o Brasil enfrenta com maior dificuldade o momento político atual, em que o presidente estadunidense tem uma pauta que nitidamente se confronta com a visão do governo brasileiro, culminando com a classificação de organizações criminosas do país como terroristas. Segundo o professor, arestas devem continuar existindo não só com Washington mas também com países europeus, o que exigirá continuamente esforço do corpo diplomático, enquanto a política interna não faz frente a isso.
Por outro lado, Leonardo Paz lembra que o fato de a oposição ao governo brasileiro instigar ações de retaliação do governo estadunidense contra o Brasil também cria uma condição de vulnerabilidade única. Seu ponto de vista de certa forma vai ao encontro do posicionamento do ex-embaixador aposentado Adhemar Bahadian, que vem criticando em seus artigos essa colaboração de figuras do campo político de oposição com medidas que atacam a soberania nacional, incluindo a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas, o que permitiria uma ação da CIA dentro do território brasileiro sem necessariamente a participação de autoridades do país.
“A ação americana militar ou não, passa a forçar o envolvimento das Forças Armadas brasileiras em operações tradicionalmente de competência da Polícia federal. A ingerência americana provoca, assim, constrangimento direto na organização do Estado brasileiro. E não de pouca monta, porque as Forças Armadas brasileiras, acertadamente não querem se transformar em forças policiais”, criticou Bahadian.
Para ele, a atual política comandada pelo chanceler Marco Rubio contradiz um histórico de boas relações Brasil-Estados Unidos. “De início, ressalto minha indignação com os comentários sobre o Brasil feitos diante do Senado Americano pelo Chanceler americano Marcos Rubio, interlocutor privilegiado do candidato do PL a Presidente da República brasileira.”, destaca o ex-embaixador. “Marco Rubio questionou publicamente a amizade histórica entre o Brasil e os Estados Unidos da América. Aqui o ideologismo do Chanceler oblitera o fato histórico. E sua acusação na Câmara alta dos Estados Unidos chega às raias do insulto. O Brasil, para início de conversa, foi o único país sul- americano que se juntou aos Estados Unidos enviando tropas à Europa no esforço de vencer o nazi- fascismo na Segunda Guerra Mundial. Nos expomos igualmente a ataques do Eixo ao cedermos parte de nosso território para a instalação de bases militares americanas no Nordeste brasileiro. Fomos portanto mais do que amigos: fomos aliados.”, acrescenta ele.
As consequências das atuais turbulências no campo internacional para o Brasil são incertas, mas os episódios serviram para expor fragilidades internas que o país já deveria ter começado a enfrentar anteriormente. Mas ainda há tempo de combater esses males.




