Arquiteto recupera locais exatos de moradia do escritor Machado de Assis e cria projeto de preservação
O arquiteto e escritor Nireu Cavalcanti fez uma pesquisa sobre todas os locais em que o escritor Machado de Assis (1839-1908) viveu no Rio de Janeiro. Foram dez endereços levantados, cujas histórias estão contadas no livro recém-lançado “Machado de Assis – Caminhos de suas moradias no Rio de Janeiro” (Editora Lacre), que traz também abordagens sobre as políticas urbanísticas da cidade no período do Império e sua expansão, bem como de sua formação miscigenada. A obra serve de ensejo para a busca da preservação, sinalização e até restauração da configuração das nove residências e um local de trabalho, em defesa da memória de uma das maiores personalidades da história do Brasil.

Joaquim Maria Machado de Assis foi um brasileiro e carioca, que como muitos, descendia de africanos e europeus. Seu pai, Francisco José de Assis, era um pintor de paredes pardo, descendente de escravos, e sua mãe, Maria Leopoldina Machado da Câmara, que faleceu quando ele tinha apenas 10 anos, era açoriana branca de ascendência portuguesa. Nasceu na Gamboa, no Morro do Livramento, numa chácara de propriedade de seu padrinho, e teve dificuldade para se alfabetizar e realizar seus estudos. O menino pobre superou tremendas dificuldades, mas se destacou na sociedade da época em grande parte graças à leitura e à sua escrita primorosa, que resultaram em artigos publicados na imprensa, peças de teatro e sobretudo romances que ficaram para a eternidade.
Justamente no seu primeiro endereço Nireu lança luzes, mostrando por meio de documentos pesquisados que ele nasceu na Rua Nova do Livramento, num espaço que já estava sendo loteado, como parte da rápida expansão urbana da cidade. No local, ele perdeu a mãe, a irmã e a madrinha, o que também era reflexo das condições sanitárias precárias da época. Segundo o autor, o atual prédio no 151 originalmente era térreo, mas foi muito alterado, com acréscimo de dois andares, o que não impediria sua recuperação.
Entre 1854 e 1867, Machado de Assis viveu com seu pai e sua madrasta, Maria Inês de Assis, na casa da atual Rua São Luiz de Gonzaga (antiga Rua da Cancela), nº 132, em São Cristóvão. Após a morte de seu pai, em 1864, continuou morando com a madrasta. Maria Inês permaneceu na região até falecer em 1891. Foi um período de início de contato com membros da família imperial, da qual se tornaria posteriormente amigo.
Em 1867, Machado de Assis mudou-se para a Rua da Alfândega, nº 123, após ser nomeado ajudante do diretor do “Diário Oficial”. Nesse período, foi indicado como membro efetivo da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e recebeu a honraria de Cavaleiro da Ordem da Rosa, em reconhecimento aos seus serviços. Estava começando a frequentar espaços culturais da elite carioca e também a melhorar suas condições de renda.
Em 12 de novembro de 1869, casou-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novaes, união que marcou profundamente sua vida pessoal e afetiva. Embora o interior do prédio tenha desabado, sua fachada original permanece preservada e pode ser restaurada.
Machado de Assis declarou residir na Rua dos Andradas, nº 119, sua quarta residência, na época de seu casamento, mas, como sua permanência ali foi breve e incerta, essa residência não é considerada uma de suas moradias oficiais. Nesse período, publicou “Contos Fluminenses” e seu segundo livro de poemas, “Falenas”, além de colaborar com diversos jornais e revistas do Rio de Janeiro.
A vida ainda era dura para o autor de “Dom Casmurro”, mas começava a melhorar no mesmo movimento que o levava em direção à Zona Sul da cidade. Passou, então, a morar na Rua de Santa Luzia, nº 58, na esquina com a atual Rua México, que na época era perto da praia. Atualmente, no lugar fica o prédio do Tribunal de Contas do Município (TCM), pois sua casa foi demolida. Mas uma placa já avisa a quem passa sobre o ilustre antigo morador, que viveu ali entre 1871 e 1874. Nos planos do arquiteto, o Tribunal deveria montar um espaço para exposições em homenagem à mulher Carolina, que era artesã.

O sobrado onde Machado de Assis e Carolina viveram entre 1874 e 1876, na Rua da Lapa nº 264, permanece praticamente preservado e pode ser restaurado com facilidade. Nesse período, o escritor publicou o romance “A Mão e a Luva” (1874) e o livro de poemas “Americanas” (1875). No entanto, a prefeitura evitou identificá-lo com a memória do escritor e colocou uma placa em outro imóvel, o que foi deplorável, num esforço de se esquivar da preservação do patrimônio histórico e da memória do escritor.
Entre 1876 e 1879, o casal residiu na Rua das Laranjeiras, nº 22. Nessa época, o escritor foi promovido a chefe de seção da Secretaria de Agricultura, alcançando destaque como funcionário público. O período foi especialmente produtivo, com a publicação dos romances “Helena” e “Iaiá Garcia”. Em 1878, afastou-se temporariamente do trabalho para tratar problemas de saúde em Friburgo. Também registrou, em crônicas assinadas com o pseudônimo Manassés, elogios ao bairro das Laranjeiras, ao mesmo tempo em que criticava os frequentes alagamentos da região.
Outro sobrado onde Machado de Assis morou foi demolido, restando apenas uma placa da Prefeitura no local, na Rua do Catete, nº 732, indicando sua antiga residência. No térreo funcionava um armazém que, além de outros produtos, comercializava escravizados, realidade que provavelmente incomodava o escritor abolicionista.
Machado de Assis viveu no Catete até 1884, período em que produziu algumas de suas obras mais importantes, como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), “Papéis Avulsos” (1882) e a peça “Tu, Só Tu, Puro Amor” (1880). Após sua morte, a antiga Rua do Pinheiro, onde ficava sua residência, foi rebatizada como Rua Machado de Assis em sua homenagem. Infelizmente, a casa foi demolida durante as obras de construção do metrô. Mas o fato é não faltam motivos para uma maior referência ao autor, inclusive com a instalação de um painel onde ele morou.
Em 1884, Machado e Carolina mudaram-se para um chalé no Cosme Velho, onde viveram por 24 anos. Esse foi o período mais produtivo de sua carreira literária e também marcado por acontecimentos importantes, como a fundação da Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente, a publicação de clássicos como “Quincas Borba”, “Dom Casmurro”, “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”, além da perda de sua esposa Carolina, em 1904. Apesar da relevância histórica, o chalé também foi demolido décadas depois. O chalé pertencia à protetora, condessa de São Mamede – Joanna Maria Ferreira Felício. Como em todos os endereços em que morou, Machado não era proprietário, mas sim inquilino. Apesar de a casa da Rua Cosme Velho ter sido demolida, há outra idêntica no local, que pertence atualmente ao Colégio Sion, que, segundo Nireu, poderia ser desapropriada para sim virar um centro de memória do escritor.
Além de suas residências, destaca-se como sua “décima moradia” o Ministério da Agricultura, na atual Praça Quinze de Novembro, onde trabalhou por 35 anos como servidor público, e poderia também ser transformado em um espaço de celebração da língua portuguesa e dos países lusófonos. O centro histórico do Rio de Janeiro, cenário de sua vida profissional, intelectual e social, foi fundamental para sua trajetória. O texto conclui defendendo a preservação e restauração dos imóveis ligados à memória de Machado de Assis, transformando-os em espaços de valor histórico, cultural e turístico para a cidade.
O projeto de Nireu foi nomeado “Rio Cidade Machadiana” e já vem sendo discutido em órgãos públicos. Ele espera a adesão também de entidades da sociedade civil e que as obras estejam prontas a tempo das comemorações dos 200 anos do escritor, em 2039.
“É um privilégio o Rio de Janeiro ter sido a cidade em que Machado de Assis nasceu e viveu e de ter morado em sete bairros da cidade ao todo. É um patrimônio que merece ser preservado”, ressalta Nireu Cavalcanti.




