No ano de 2016, o número de pequenos negócios exportadores cresceu 12% no Brasil, em comparação com 2015. Parcela significativa das empresas brasileiras exportadoras, 38%, reúne micro e pequenas empresas. No total, mais de oito mil empreendimentos faturaram US$ 997,7 milhões em vendas. No entanto, os produtos exportados por essas empresas não têm alto valor agregado: de toda a exportação dessas categorias em 2016, apenas 4,1% representam produtos de alta tecnologia e 26,0% de média-alta.

Para o pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro David Kupfer, as inovações no Brasil hoje ainda não melhoram a competição dentro do país, o que pode acontecer na próxima década. Uma prévia deste movimento pode estar se expressando, aos poucos, nas micro e pequenas empresas marcadas pela introdução de novidades no mercado: as startups. Com caráter necessariamente inovador e geralmente relacionadas à tecnologia, elas exportam seus produtos e serviços para cada vez mais países.

Mais capacitação para negócios internacionais
Desde novembro de 2017 o processo de exportação de startups se tornou mais simples: no dia 24 foi lançado em São Paulo o programa StartOut Brasil, que vai realizar “missões” em outras cidades do mundo, com 15 startups em cada missão, para que possam se preparar para os negócios internacionais. Os interessados que forem selecionados contarão com consultoria especializada para se preparar para os negócios e as demais tratativas nos países programados.

Estão inclusas nas missões visitas a empresas locais, incubadoras e aceleradoras, reuniões, encontros para investidores e apoio pós-missão para definição de estratégia de internacionalização. A iniciativa é uma parceria entre governo federal; Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços; Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae); Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex-Brasil); e Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec). No lançamento, a  diretora técnica do Sebrae, Heloisa Menezes, afirmou que “o programa vai identificar oportunidades, além da capacitação, mentoria e consultoria especializadas, de acordo com as especificidades de cada empresa”.

Tecnologia portátil e adaptável para Medicina
Uma das áreas nas quais startups brasileiras mais vêm se destacando é a da Medicina. É o caso da Magnamed, criada em 2005, que em seis anos de aceleração, financiamentos e desenvolvimento de protótipos, em 2011 entrou nos mercados nacional e europeu como uma empresa bem estruturada. A Magnamed produz ventiladores pulmonares para uso em UTIs e transporte intra-hospitalar. Como startup, o sucesso da empresa é marcado pelo ineditismo: um dos produtos, o OxyMag, foi projetado especificamente para ser usado por equipes de resgate e emergência no transporte intra-hospitalar e é instantaneamente adaptável a qualquer paciente, de recém-nascidos a adultos. Em abril de 2017, a empresa já havia vendido cerca de 1700 aparelhos OxyMag no Brasil, metade para a rede pública, e mais 1300 para Europa, América Latina, África e Oriente Médio. A exportação atinge mais de 40 países.

Dentre ventiladores pulmonares de uso médico e veterinário e analisador de ventiladores, a Magnamed já lançou um total de seis produtos, e a inovação contínua a leva a relevantes eventos internacionais para apresentar os equipamentos. A internacionalização foi ainda mais longe: os fundadores nipo-brasileiros Wataru Ueda, Tatsuo Suzuki e Toru Miyagi Kinjo se preparam para abrir sua primeira fábrica no exterior, na Flórida (EUA). O investimento inicial é de 2 milhões de reais, mas a estratégia é mais valiosa: abrir novas frentes nos Estados Unidos, México, Canadá e América Central.

Csanmek: simulador em 3D para anatomia
As áreas da medicina e medicina veterinária também se mostraram muito propícias para a startup Csanmek, que com apenas dois anos no mercado exporta tecnologias educacionais para universidades nos Estados Unidos, México e Peru. A empresa desenvolve simuladores 3D do corpo humano e de animais, possibilitando dispensar o uso de cadáveres em aulas de anatomia. Incluindo o Brasil, os produtos da Csanmek são utilizados em 30 cursos de medicina humana e veterinária e a expectativa da empresa é que em 2018 possa comemorar como balanço de 2017 cerca de 2,5 milhões de reais em negócios no exterior.

Aplicativos: mercado em expansão
Outras startups que ultrapassaram as fronteiras brasileiras baseiam-se, principalmente, em serviços via internet. É o caso do Buscapé, site de comparação de preços de produtos criado em 1999 e hoje presente na Argentina e no Chile. As tendências de serviço online de motoristas e compartilhamento de carros também se destacam: o aplicativo Easy Taxi, lançado em 2011 e criado durante o Startup Weekend Rio, hoje está presente em 12 países da América Latina, contemplando mais de 170 cidades. Já o aplicativo Parpe facilita o aluguel de carro de uma pessoa para outra. A startup foi fundada há quatro anos em São Paulo e, em novembro, começou a operar em Portugal.

Qualidade e sofisticação tecnológica
Num cenário nacional, que conta com milhares de startups e centenas de incubadoras de empresas, o fator inovação deve ser cada vez mais forte e relevante, capaz de mudar o quadro atual: a maioria das startups do Brasil fecha em menos de cinco anos.

Para Marcio Girão, conselheiro do Clube de Engenharia e diretor de inovação da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a “receita” da preparação de uma startup para o mercado internacional é a qualidade, associada à sofisticação tecnológica dos produtos ou serviços.

Os desafios são vários e vão desde a frágil imagem do Brasil no exterior até a adaptação à “musculatura global”, como ele chama a série de características que deve ter uma empresa para atuar globalmente. São elas: canais de distribuição, atendimento globalizado (mesmo que à distância), plano definido de crescimento e apoio dos investidores de risco. Para o conselheiro existe um ponto crítico para a entrada no mercado externo: “O momento crucial é o que chamamos de ‘vale da morte’, onde a empresa já tem um produto e precisa alavancá-lo no mercado internacional, exigindo novas rodadas de investimentos bem mais significativas que o necessário p
ara chegar neste estágio. Uma sugestão para mitigar esses problemas é a parceria internacional, daí a necessidade de conhecer in loco as empresas afins onde se deseja atuar”. Para ele, a “exportação” de startups tende a ser muito positiva para o país, pela geração de riqueza e emprego, e também para fortalecer a imagem do Brasil como gerador de inovações.

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