Por Renata Schimitt*

O Terreno Cabo Frio (TCF), localizado no sudeste do Estado do Rio de Janeiro, compreende duas unidades litotectônicas principais, um embasamento do Paleoproterozóico (2.0 Ga) e uma seqüência supracrustal do final do Neoproterozóico (600 Ma). Desde a década de 50, trabalhos científicos apontam para as diferenças do TCF em comparação com a Faixa Ribeira, tais como: a ausência de plutons brasilianos, as estruturas deformacionais dúcteis com orientação NW-SE (ortogonais à faixa), o metamorfismo de alta pressão (em contraste com a baixa pressão do terreno adjacente), e a presença de um embasamento paleoproterozóico.

Foi aventada a hipótese de que o TCF (também chamado de Domínio Tectônico de Cabo Frio, Bloco Cabo Frio) seria a expressão do Craton do Congo no Brasil. Dados mais recentes, obtidos a partir de mapeamento de detalhe e análises petrológicas, químicas e de geocronologia, comprovam que as duas unidades litoestratigráficas do TCF foram deformadas e metamorfisadas em fácies granulito durante o Cambriano (entre 525 e 490 Ma), num evento denominado Orogenia Búzios. Estas idades, mais jovens com relação ao dito auge colisional da Faixa Ribeira (entre 600 e 570 Ma), explicam parcialmente porque o TCF apresenta tantas diferenças, justamente por ser mais jovem e acrescionado mais tarde. Novos dados isotópicos reforçam a hipótese de que a seqüência supracrustal (Sucessão Búzios-Palmital) é um pacote de metassedimentos de origem marinha intercalados com metabasitos com protólitos do tipo E-MORB. Os zircões detríticos nos sedimentos e isócronas Sm-Nd nas rochas máficas indicam que a idade máxima desta bacia oceânica seria de 620. Mas isto significa que a bacia Búzios-Palmital estava em fase de abertura num período que grande parte das faixas móveis brasilianas estava em fase de compressão e transpressão. A inversão do movimento nesta bacia se deu em algum momento entre 600 e 530 Ma, sendo esta última idade do metamorfismo. Esta inversão foi acompanhada pela subducção parcial do pacote de supracrustais, levado a profundidade de no mínimo 30 quilômetros. A subseqüente colisão com o Cráton do Congo provocou também a inversão da estratigrafia trazendo nappes de cavalgamento do embasamento paleoproterozóico por sobre as rochas supracrustais. O limite do DTCF com a Faixa Ribeira ainda está em discussão. Na hipótese mais simples, o embasamento estaria empurrado por sobre rochas metassedimentares, sendo as rochas supracrustais da Bacia Búzios-Palmital contemporâneas às rochas supracrustais do terreno vizinho (Terreno Oriental) denominadas unidade São Fidélis. Sabendo-se que esta falha de empurrão, com vergência para NW, é atribuída à fase deformacional D3 do TCF, dificilmente ela será a sutura, pois não apresenta rochas máficas-ultramáficas. A ocorrência de plútons calcio-alcalinos de 580 a 560 Ma no terreno vizinho, intrudindo as rochas supracrustais da unidade São Fidélis, pode ser indicativa de que houve uma subducção para oeste, responsável pela acresção do TCF à Faixa Ribeira.

A recente descoberta de orto e paragnaisses, correlacionáveis ao TCF, na margem oeste africana (Faixa Angolana) reforça a hipótese de que este terreno geológico está em contato com o Craton do Congo em Angola. Portanto não existem indícios de subducção relacionada à colisão do TCF para o lado africano. Além disso, este domínio guarda a sutura mais jovem dos eventos brasilianos no sudeste, sendo uma das cicatrizes continentais reaproveitadas durante o rifteamento mesozóico. A ocorrência de outros terrenos cambrianos nas regiões costeiras do Atlântico Sul pode corroborar com a existência de uma faixa móvel cambriana escondida sob a bacia do Atlântico.

 

*Renata da Silva Schimitt é geóloga, e apresentou a palestra "Evolução tectônica do Terreno Cabo Frio e sua conexão com a África" no Clube de Engenharia em 25 de outubro de 2008.

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