Órgão da prefeitura carioca foi criado para solucionar crise e acabou ao longo de décadas preservando vidas
Chuvas fortes ainda são motivo de transtorno para os cariocas, mas esses temporais já não acarretam mais tamanho perigo de mortes como no passado. O trabalho de contenção de encostas na cidade e de prevenção como um todo, exercido nas últimas décadas, dotou os morros de maior segurança e virou referência até internacional. A proteção da população foi conquistada graças aos investimentos e aprimoramentos técnicos da GEO-RIO, órgão municipal que está completando 60 anos. Ao longo do tempo, a fundação ajudou a proteger principalmente a população dos morros, mas também adquiriu expertise em monitoramento e alertas, bem como em tecnologia e licenciamento de obras.

Os deslizamentos ainda interrompem vias de trânsito, atingem casas e edifícios, provocam mortes, mas atualmente seus efeitos são mais tênues. Por outro lado, na década de 1960 episódios trágicos ocorreram. Em janeiro de 1966, uma tempestade colapsou os transportes da cidade, alagou ruas e provocou queda de barreiras, deixando um saldo estimado de 250 mortes. O trauma foi tão forte que levou as autoridades a agirem. Em março daquele ano, o então governador do Estado da Guanabara, Francisco Negrão de Lima, criou por decreto o Instituto de Geotécnica, berço da atual GEO-RIO, para executar obras de contenção. Enquanto o órgão estava se estruturando, no verão seguinte, um novo temporal impactou a cidade. Dessa vez, em Laranjeiras, a queda de uma rocha derrubou dois prédios e uma casa, tirando a vida de cerca de 120 moradores. Foi um marco para a conscientização sobre a necessidade de uma política de prevenção e para a aceleração das medidas administrativas.
A iniciativa começou logo a dar resultados e seu sucesso se deveu em grande parte à qualidade do corpo técnico contratado, formado principalmente por engenheiros e geólogos. Tanto que logo no segundo ano de funcionamento, foram realizadas cerca de 200 obras de contenção no município, enquanto em 1968 foram iniciados outros 165 projetos. Mas o órgão se tornou popular entre os cariocas em virtude também de um certo “marketing”. Por orientação do governador, o concreto tinha que ser pintado de branco para dar mais destaque às obras. Também houve muito empenho por parte de funcionários e operários para que os riscos fossem eliminados. Uma das obras mais complexas feitas até hoje pela GEO-RIO foi a proteção de uma fenda no Morro do Cantagalo, na Lagoa. Para fincar os pilares no alto e evitar desabamentos de rochas que poderiam atingir os prédios, o material precisou ser transportado por teleférico, e os trabalhadores subiam por escadas íngremes. Outro trabalho desafiador foi no Corcovado, bem abaixo da estátua do Cristo Redentor.

Foram anos de investimento, acúmulo de conhecimento e experiência, que dotaram o órgão de uma exímia capacitação reconhecida no Brasil inteiro e até no exterior. Conforme ressaltou o atual presidente da fundação, o engenheiro Anderson Marins, que proferiu uma aula magna no Conselho Diretor do Clube de Engenharia do Brasil, no dia 11 de maio passado, até o Manual de Engenharia Geotécnica Aplicada à Sociedade, produzido pela GEO-RIO, é utilizado por outros municípios. O órgão já prestou inclusive assessoramento a outras cidades em projetos de contenção. O modelo de gestão de risco, que começou a ser implantado na década de 1980, é considerado exemplar e culminou na criação do sistema Alerta Rio, na década de 1990, que emite avisos à população, sobretudo moradores de áreas de encostas sob ameaça de deslizamento, sempre que uma chuva forte se anuncia e também quando os índices pluviométricos estão altos.

É um sistema que envolve diversos órgãos da Prefeitura e leva em conta dados pluviométricos, mapeamentos de risco, mapas de suscetibilidade, de ocupação das encostas e principalmente laudos a partir de vistorias nos locais. Grande parte das ocorrências é atendida de forma emergencial pela Defesa Civil, mas há também a colaboração da população, por meio das redes sociais e ou pelo serviço 1746. A tecnologia também ajuda no aprimoramento desse sistema e a fundação mantém convênio inclusive com a NASA para o trabalho de monitoramento. Por outro lado, os dados são fornecidos constantemente ao Centro de Operações Rio (COR), que cuida do monitoramento da cidade como um todo.
“Nós temos um manual que é vendido e que todos os municípios que tentam aprovação em órgãos federais a seus projetos fazem uso dele. Isso tudo é fruto da nossa experiência desses 60 anos e é realmente um manual de geotécnica aplicada na cidade”, destacou Marins.
Uma obra mais recente que causa orgulho foi realizada no Vidigal para contenção de riscos em uma área extensa da comunidade. Após um acidente ocorrido em 2019, durante um período de fortes chuvas na cidade, a GEO-RIO complementou a barreira dinâmica existente com a instalação de uma tela de alta resistência. O principal desafio da obra foi a dificuldade de acesso ao local, em plena rocha do Morro Dois Irmãos, que possuía mais de 900 degraus, tornando o transporte dos perfis estruturais bastante complicado. Apesar das dificuldades, a obra foi concluída com sucesso.

No Morro do Turano, na região da Tijuca, ocorreu um deslizamento próximo ao Natal de 2024 que atingiu prédios localizados na Rua Doutor Oscar Pimentel. No local, houve o avanço da comunidade sobre as encostas, o que exigiu intervenções realizadas pela prefeitura, como a recuperação de uma canaleta de drenagem danificada e a construção de um muro de impacto para contenção. Infelizmente, o descarte irregular de lixo é um problema persistente, mas o órgão tem atuado também por meio da educação ambiental.
Mas a GEO-RIO também atua em licenciamentos de obras privadas, normalmente por conta de empreendimentos que são realizados na cidade próximos morros. Segundo o presidente, com base no Decreto 17.315 de 1999, é exigido que os empreendimentos garantam a segurança dos futuros moradores. Como exemplo, foi citado um projeto em uma antiga pedreira no Encantado, na Rua 2 de Fevereiro, localizado em uma área de escarpa e anfiteatro. O empreendimento gerou debates devido à proximidade de um bloco com a encosta, levando a exigências de várias obras de estabilização. Porém, o empreendedor alegou que as intervenções inviabilizariam financeiramente o projeto e decidiu retirar o bloco previsto, adotando um maior afastamento da área de risco.
Segundo o presidente da Fundação, é nítido que mudanças climáticas tendem a agravar os fenômeno atmosféricos, sobretudo chuvas. Precipitações com índices pluviométricos acima de 50 mm têm sido mais frequentes. Mas a cidade tem se mostrado mais resiliente e resistido melhor a esses fenômenos, graças aos investimentos feitos nos últimos 60 anos.
“Nós já temos quase mil licenciamentos, 300 obras realizadas, 460 milhões investidos, 949 vistorias realizadas, aproximadamente em 190 mil pessoas beneficiadas com o nosso trabalho e atualmente nós temos 90 funcionários, com 37 técnicos de campo, entre geólogos e engenheiros e esse dado aqui não saiu, mas nós temos cadastrado no sistema de informações urbanas mais de 9 mil sondagens. E o que esperar do futuro? Temos que investir no aprimoramento constante”, concluiu Marins.




