O Descobrimento do Brasil, ou a sua Invenção

O Descobrimento do Brasil, ou a sua Invenção

O Descobrimento do Brasil, ou a sua Invenção
Brasil nos trilhos

 Por Olga Simbalista

Este texto é baseado em conferência proferida no Conselho de Notáveis da Confederação Nacional do Comércio, intitulada “A Invenção do Brasil, uma Interpretação da Carta de Pero Vaz de Caminha” de autoria do notável Nelson Mello e Souza, em agosto de 2025.

Nesse contexto é dito que a história é uma ciência social básica, mas como veremos no desenvolvimento do tema, perigosa em relação à verdade. Tudo porque ela sofre, de modo quase inevitável, da obediência a costumes, crenças e ideologias sociais dominantes. 

Vejamos nós, brasileiros, o que aprendemos no ensino básico, se afasta algo da verdade. Destarte, somos, desde cedo, sufocados por feitos de sentidos duvidosos ou vitimados por fantasias com imprecisões quase evidentes.

Muito disto é proposital. Artistas adornam a Primeira Missa nas terras novas, outros colaboram para valorizar a Independência com heróis de ficção montados em garanhões de fantasia, espada em punho. É um jorro de bravatas.

A boa fé dos narradores tem um sentido positivo, pois esses episódios motivam o público nos desfiles, fortalecem o orgulho nacional e consolidam a identidade brasileira.  Mas temos, igualmente, que entender sua falsidade cultivada no processo de nossa escolaridade.

O problema é termos pouco para cantar e muito para lamentar. A colônia firmou-se num regime deplorável. No modelo de colonização estabelecido, observou-se um sistema produtivo fundamentado inicialmente na escravização dos indígenas e, posteriormente, dos africanos.   Seus destinos seriam  a mão de obra necessária para produzir uma monocultura de exportação. Era um destino trágico e sua tragédia não pode ser defendida pela elite do poder. O que tivemos foi uma Côrte e um grupo de poder que preferia o comércio fácil do pau brasil e o jogo das especiarias orientais. A colônia encontrada, ou achada pela frota de Cabral, era evidentemente rica em matérias primas como a Carta de Caminha descreveu (“terra em que nela em se plantando tudo dá”). Se tivesse um projeto de grandeza, se fosse usada como suporte manufatureiro para indústrias têxteis, farmacêuticas e de construção, já que Portugal não possuía matéria prima para isto, daria à Coroa meios para crescer de outra forma mais sólida, formando, na colônia, um importante mercado interno.

Ao invés de financiar uma indústria nascente, com empregos e não com escravos, Portugal concebeu uma sexta cruzada sem apoio de ninguém. Reuniu um custoso exército, sob a liderança do jovem rei D. Sebastião e invadiu o norte da África em busca de muçulmanos para degolá-los.  O exército foi aniquilado e o rei morto.

Considerar impositiva nossa condição de atraso em relação à economia mundial, era visão dominante, já que não tínhamos carvão. Como se o Japão o tivesse. Nossos estadistas parecem não ter percebido que a debilidade de um sistema colonial que durou 300 anos não poderia haver deixado melhor herança.

Cabral teve o cuidado de enviar uma nave especial a Portugal registrando a boa nova. O portador levava as cartas de João Farias, uma espécie de médico da frota, como também a de um piloto que não se conhece o nome, daí chamá-la “de Carta do piloto anônimo”, além da mais importante, a de Pero Vaz Caminha. Mas o rei não tomou conhecimento de nenhuma delas e ficaram guardadas em um baú até o século XIX.

A descoberta do Brasil é um mito conveniente.  O Brasil não foi descoberto. Ele foi “construído”. E esta construção obedeceu a valores de desprezo quanto a seu potencial econômico. Só depois de decorridos 30 anos, a Corte decidiu iniciar a construção da colônia com o único objetivo de explorá-la.

Não havia “Brasil“ algum a ser descoberto. O nome “Brasil”, por seu lado, originado em antiga lenda celta sobre terras afortunadas perdidas em pleno Oceano, nada teve a ver com o continente encontrado. “Brasil” só “pegou” porque era parte do linguajar dos mercadores. De tanto falar em “pau Brasil” em ir ao “Brasil” para trazer sua madeira, o nome ficou. Mas ficou sob protestos da Igreja que via heresia em substituir o nome sagrado da “Santa Cruz” por uma madeira. 

O importante a notar é que o pequeno Portugal, depois dos trabalhos de ciência náutica da Escola de Sagres, tornou-se uma potência dominante na navegação em mar denso e aberto.  Se usasse os recursos das novas terras com sabedoria, ao invés de se obstinar no comércio de especiarias, que acabou perdendo para as companhias holandesas e para o avanço inglês, podia ser uma das potências mundiais e, talvez, o Brasil também.”

Autoria

Olga Simbalista

Olga Simbalista

Bio: Engenheira eletricista e nuclear, é vice-presidente do Clube de Engenharia, membro da Academia Nacional de Engenharia - ANE.

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